quinta-feira, 13 de dezembro de 2007



Indianidade/outridade em Olívio Jekupé

por Graça Graúna(*)









Etnia e Síntese biobibliográfica
v OS GUARANI

As observações acerca deste grupo vêm da Associação Guarani Nhe'em Porã, fundada em 1999, pelo escritor Olívio Jecupé e seus parentes indígenas Marcos Tupã e Geraldo de Paula.
A Aldeia Krukutu localiza-se a 50 quilômetros da cidade de São Paulo. Possui vinte e seis alqueires de mata atlântica preservada, onde convivem 30 famílias guarani, com aproximadamente cento e quarenta pessoas. O seu cotidiano é marcado por atividades culturais, com passeios turísticos, venda de livros, artesanato, filmagens e outras manifestações culturais.
No contato com os turistas que visitam a aldeia, os Guarani procuram desconstruir as idéias ligadas ao povo indígena, mostrando-lhes como mantêm viva a cultura indígena. Com a Associação também foi criado o grupo de arte e cultura Guarani Kyringué Nheem (coordenado por Marcos Tupã), inicialmente composto por um coral de crianças que passaram a realizar apresentações dentro e fora da aldeia. Segundo a Associação Guarani. Na opinião de seus integrantes:

mesmo com a organização dos trabalhos os investimentos na aldeia continuaram ínfimos. [...] Nem o governo do Estado de São Paulo nem a prefeitura municipal concretizaram qualquer obra reivindicada na aldeia. Não temos escola e a estrada de acesso está em situação crítica. De importante podemos citar [...] a construção de um poço artesiano [que] conseguiu diminuir sensivelmente a taxa de mortalidade infantil na aldeia. Outra obra realizada pela FUNASA foi a construção de banheiros próximos às casas das famílias. [...] Com esses [..] investimentos consideramos que a Associação Guarani Nhe'em Porã tem um campo privilegiado de trabalho [e] continua muito fiel as suas tradições.[1]


v SÍNTESE BIOBIBLIOGRÁFICA

Olívio Jekupé nasceu em 1965, em Itacolomi, no Paraná. A sua avó é de origem Guarani-Nhandeva de Piraju (São Paulo). “Quando era pequena, teria uns cinco anos de idade – por volta de 1920, talvez – sua aldeia foi massacrada, os remanescentes fugiram”, afirma Betty Mindlin (2000, xiii) no prefácio do livro O Saci verdadeiro, de Jekupé (2000).
Os depoimentos pessoais do autor dão conta de que, em suas veias, corre o sangue mestiço: do lado materno, indígena. O lado paterno é natural de Rio do Pires (Bahia). Olívio Jekupé mora na Aldeia Krukutu, em São Paulo. As experiências na cidade grande renderam-lhe volumes de prosa (contos e historiografia) e um livro de poemas, a saber: 500 anos de Angústia (1999), poemas; Xerenkó Arandu: a morte de Kretã (2001), contos e historiografia; Irandu: o cão falante (2001), contos. Há outros livros, porém inéditos: um deles traz histórias do povo Guarani e faz parte da Coleção ‘Memórias Ancestrais’, coordenada por Daniel Munduruku, junto à Editora Peirópolis.
Jekupé foi estudante de Filosofia em São Paulo. As dificuldades financeiras impediram-no de concluir o curso, mas permanece a sua paixão por Nietzsche. Daí o seguinte comentário: "Alias eu sou aquele ‘índio nietzscheano’ que você[2] leu no livro do parente Daniel Munduruku; foi uma história real aquela, aliás, conheci Daniel há muitos anos e estudamos juntos na USP. Ele é um grande escritor". No prefácio do livro O Saci verdadeiro, a antropóloga Betty Mindlin (2000), escreve o seguinte acerca do escritor Olívio Jekupé:

Quando era criança, na Bahia, Olívio sempre se ouvia chamar, pejorativamente, de ‘índio’. O preconceito de que, como tantos outros, foi vítima, não o fez rejeitar seu povo de origem ou desejar diluir-se unicamente no mundo do pai, que não era índio.

[...]

O anseio de ser índio, num país preconceituoso, que exterminou os primeiros habitantes e tomou suas terras, que marginaliza, desconhece e não valoriza a multiplicidade de seu tesouro social e cultural – temos mais de 200 povos e línguas indígenas – só pode ser digno de admiração. Assim como Olívio, muitos povos do Nordeste, Leste e Sul do Brasil são teimosos, procurando marcar uma cidadania brasileira diferenciada, tratando a duras penas de reconstruir sua identidade, por vezes as línguas originais que perderam, de reconquistar parte de suas terras, de manter os laços comunitários (MINDLIN, 2000: xii).

Análise
As observações de Mindlin a respeito do livro de Jekupé mostram que o reconhecimento em torno da literatura indígena-descendente se faz necessário ao exercício de cidadania, embora o estudo dessa produção não seja contemplado no Parâmetro da Educação Escolar Indígena. Se um dos objetivos do RCNEI é discutir os temas transversais, tais como identidade/alteridade, (des)igualdades/diferenças o prefácio de Mindlin, por exemplo, dispensa apresentações para ser incluído em uma próxima edição do Referencial e do Caderno de Apresentação/2002, subsidiado pelo MEC.
Com base no diálogo entre literatura e antropologia observado em Mindlin, pensemos nas questões que acompanham os seres humanos jogados nesse mundo. De onde viemos? O que somos? Qual o nosso lugar? Para onde vamos? Essas perguntas ilustram, nas entrelinhas, a mente de um garoto: um pensador Guarani chamado Karaí. No olhar do narrador, esse personagem fala da necessidade de interpretar o mundo, de contrariar as inverdades, de buscar sua identidade para reconhecer que ele e o outro (quer seja índio, branco, negro, mestiço) são parte integrante de uma realidade maior: o ser humano. Neste trabalho, a análise focaliza a relação identidade/alteridade em O Saci verdadeiro. É dessa questão, entre outras, que trata a narrativa de Olívio Jekupé (2000).
A conversa do personagem Karaí com a sua mãe, uma contadora de histórias, é o ponto de partida que o escritor Olívio Jekupé utiliza, mostrando que as vozes da tradição se mantêm vivas apesar dos tempos de neocolonização. Para compreender os desafios desse conto, convém ressaltar que ele foi inspirado “nas histórias contadas por muitos tios e tias [do autor] que vivem nas terras Guarani” (MINDLIN, 2000: x). Fruto da autonomia de autor, o livro apresenta um pequeno Guarani descontente com a velha imagem que fazem do índio nos chamados livros infantis e/ou paradidáticos. Daí a sua busca por um personagem verdadeiro.
O livro apresenta duas partes: na primeira, intitulada: “O índio só de um braço”, o narrador em terceira pessoa acompanha os conflitos de Tupã Mirim, um menino que se sentia só. Ele não podia fazer muitas coisas porque lhe faltava um braço. Sentindo-se deslocado em meio a tanta gente da aldeia, principalmente dos amigos que se divertiam pulando no rio, subindo árvores, caçando, namorando, Tupã Mirim lembra das histórias do avô a respeito do Saci: um protetor das matas que ajudara o avô em muitas ocasiões. A crença de Tupã Mirim nas histórias contadas pelo avô e solidariedade do saci devolvem-lhe a autoestima, aproximando-o de outros parentes da aldeia.
A segunda parte da narrativa dá título ao livro e coloca em primeiro plano o pensamento de um curumim (menino) chamado Karaí. O grande personagem do livro é o pensamento indígena que se revela na passagem da tradição oral à manifestação escrita. Ele não sabia ler, nem escrever, mas tinha em mente que precisava desse conhecimento para registrar, contar as histórias que a mãe lhe contava e tornar críveis e incomuns as narrativas da aldeia, em contraponto as histórias mal contadas. Com esse pensamento Karaí entrou na escola fora da aldeia, mas à medida que a freqüentava ele passou a duvidar das histórias ancestrais.
A professora contava histórias que as crianças acreditavam, menos Karaí. Um dia ele resolve tirar o assunto a limpo, mas descobre muita discriminação e preconceito, até perceber que o Saci é, também, um índio e verdadeiro. Vejamos algumas passagens da história, a começar do diálogo entre uma contadora de histórias e o seu filho:

Quase todos os dias, Karaí ouvia histórias da sua mãe antes de deitar. Ouvia com atenção e sempre dizia:
_ Mãe, quando eu tiver meus filhos irei contar tudo a eles, assim como a Senhora me conta.
O tempo foi passando e ele continuava a ouvir as histórias que a sua mãe contava. Ficava impressionado e não como sua mãe guardava tudo aquilo na cabeça.
_ Será que vou guardar tudo o que minha mãe fala? – pensava sempre (JEKUPÉ, 2000: 27).

A história do saci verdadeiro configura uma das especificidades do discurso literário indígena que é, entre outras, a constante referência à espiritualidade ancestral, como forma de criticar a banalização do discurso que o outro faz no que diz respeito ao pensamento indígena. A falta de informações sobre o assunto contribui para a existência de tantos preconceitos. Na escola, principalmente, a desigualdade se reproduz porque os programas de ensino não valorizam a pessoa do índio, do negro, do mestiço e de outros grupos rotulados de minoria. A autohistória/memória da escritora e pedagoga indígena Darlene Taukane (1999) sobre o seu tempo de escola vem ilustrar a situação:

Muitas vezes vi que era diferente aos olhos de ‘outros’ e tive que mudar e modelar muito a minha postura, minha maneira de ser, porque agia com certa ingenuidade diante deles e das coisas que ouvia, dentre elas, as pessoas que falavam em nome do índio e falavam como ‘amigos’ dos índios. Hoje em dia eu tenho a clareza de separar quem são esses ‘amigos’ (TAUKANE, 1999: 18).

Ausentar o estímulo à reflexão significa retirar a possibilidade de diálogo, como observam Bordini e Aguiar (1993) acerca da formação leitor. Nesse sentido, vale anotar as palavras de Sidney Soares (2000) com respeito ao livro de poemas de Jekupé, pois mostram, claramente, uma das raízes do problema:

Desde criança tenho curiosidade sobre as várias nações indígenas do Brasil, mas nunca tive grandes informações sobre tal assunto. Se um dia algum professor pedisse para que fossemos ler um livro de poesia escrito por um índio, seria um grande susto para todos. Acredito que isso ocorra porque no senso comum existe a idéia que o índio é vagabundo e ignorante, o trabalho do índio é diretamente relacionado a uma coisa ruim.
Sendo assim, não temos nenhuma música de um grupo indígena nas paradas de sucesso ou representantes oriundo da comunidade indígena na mídia. Você se lembra de algum apresentador de TV Kaiapó, um repórter Xavante, um jogador de futebol Pataxó, ou um poeta Guarani?
Desprovidos de suas terras e suas tradições culturais, os povos indígenas foram incorporados na sociedade brasileira abaixo do nível da pobreza. Assim, em muitas cidades onde existem povos indígenas estes são vistos como bêbados e pedintes. O índio miserável (SOARES, 2000: 5).


Essas questões traduzem o contraponto entre a pedagogia dominante e a indígena. Naquela, a reprodução da desigualdade fomenta o individualismo. Na educação indígena, considerando a “alteridade moderna”, Meliá (2000: 15) nos ensina que “é precisamente a participação da comunidade que assegura uma alteridade bem entendida”, isto é, a serviço da comunidade. Nesse contexto, a narrativa de Jekupé configura um espaço de liberdade para que o Saci indígena possa manifestar sua alteridade como protetor dos homens e das matas, ou como personagem que se identifica com quem se vê ou se sente diferente, ou até mesmo deslocado dentro ou fora da aldeia.
Índio ou mestiço, basta invocar sua presença, o Saci aparece - como dizem os parentes. Na sua alteridade, o Saci indígena não usa gorro. Tem as duas pernas e carrega no pescoço um colar, ou baêta. Aquele que roubar o baêta fica com os seus poderes, diz o conto. O outro, isto é, o saci dos contos populares é rotulado de mal e bagunceiro, como aparece no livro de Monteiro Lobato, “escrito quase como a biografia de alguém que existe de verdade [nos] depoimentos sobre a figura de uma perna só”, como observa Mindlin (2000: ix).
A percepção do outro em Olívio Jekupé parte da consciência de si mesmo (um índio-descendente) e da sua relação com a comunidade indígena que lhe conferem o atributo de mestiço. Reconhecer-se nessa mistura implica também uma parte do problema, quer seja fora ou dentro da aldeia; contudo a carga de preconceitos contra o indígena e seus descendentes parece mais acentuada fora da comunidade. Os seus poemas em 500 anos de Angústia denunciam o individualismo, o preconceito. O próprio autor comenta na Revista O mensageiro (jul./ago. 2000:21) o que lhe motivou a escrever o livro:


[...] escrevi em protesto aos 500 anos de descobrimento do Brasil. Todo mundo sabe que o Brasil não foi descoberto, porque quando os portugueses chegaram em 1500 já havia gente [...] os nossos antepassados.
Mas o que se vê no momento é a grande mídia tentando esconder a história e mostrar um Brasil sem problemas, que aliás não é verdade.
Em meu livro [...] tento tratar de poesias sobre o meu dia a dia na aldeia [...] Não tenho patrocínio, a edição é independente.


Com efeito, essa atitude diante do texto literário e das questões indígenas vai ao encontro da construção dos personagens, das situações e dos problemas discutidos em O saci verdadeiro. Nesse sentido, temos:
a) um narrador atento aos passos e às inquietações de um pensador curumim;
b) um pequeno Guarani que aprende a distinguir – desde cedo – o verdadeiro, do falso;
a) o problema da intromissão de outros valores na aldeia;
b) a representação da mulher como contadora de histórias em contraponto aos ensinamentos que o curumim recebe fora da aldeia;
c) a verdade dos fatos em torno da identidade.

A questão identidade/alteridade convoca-nos a repensar o direito à diferença para entender o outro e compreender melhor a nós mesmos. Esse processo, que só existe pela consciência de nos tornarmos outro sendo nós mesmos (Meliá), converge à visão dos escritores e escritoras indígenas no Brasil e em outras partes da Ameríndia. Pensemos em Octavio Paz e, por extensão em Zilá Bernd, ao retomar o pensamento do poeta mexicano, cuja concepção de alteridade e identidade implica um “processo/dinâmica que se constrói e se desconstrói sem dissociar-se do conceito de alteridade, pois só existe identidade pela consciência de diferença que é posta por uma situação de estranhamento” (BERND, 1987: 38).
No espaço da narrativa, o compasso da escola não oferece tempo, nem abertura a mais perguntas. Atento às inquietações de Karaí e ao ritmo da escola dominante, o narrador observa: “Muitas vezes depois que batia o sinal, [Karaí] ficava lendo uns 20 minutos na biblioteca, depois ia pra casa. Ia pensando nas histórias que lia e chegando lá contava a sua mãe” (JEKUPÉ, 2000: 29).
Embora essa escola dê sinais ou vestígios de um entrelugar que é a biblioteca, ou seja, um local[3] de passagem onde o curumim busca – por meio dos livros – entender o outro e a si mesmo, a interiorização desses problemas se realiza na aldeia.
Do ponto de vista do narrador, o entrelugar da escola até parece familiar ao pensador Karaí. Não parece estranho, considerando que o personagem começou a desenvolver, desde cedo, o gosto pela leitura e muito mais cedo foi incentivado, sobretudo, a cultivar o hábito de ouvir e contar histórias de acordo com os costumes da aldeia.
Meliá (2000: 12-13) esclarece que no universo Guarani “a pessoa é uma ‘palavra’ única e irredutível, cuja história será uma espécie de hino de palavras boas e belas, uma história de palavras inspiradas, que não podem ser aprendidas nem memorizadas [e nem] podem ser, a dizer a verdade, ensinadas.”
Na visão do pequeno Guarani os livros, em geral, banalizarem a história do índio Essa consciência vem do convívio na aldeia até mostrar-se no desenvolvimento do hábito de leitura e da escrita, favorecendo a descoberta dos sentidos. Dessa perspectiva, em meio ao diálogo com a sua mãe, o pensador curumim expressa o seu raciocínio para que todos possam ficar sabendo da sua história, da forma ‘mais segura’, isto é, se atentarmos para uma alteridade moderna (Meliá). Assim, diz o Karaí:

_ Mãe, quando eu estiver no quarto ano, começarei a escrever as histórias que a senhora me contou e conta. E quem sabe, um dia, até editarei um livro, assim como os brancos fazem. Sabe, a história escrita fica mais segura. Assim, como as do Saci, tem muitos índios da minha idade que não sabem muita coisa sobre ele...
_ Isto é verdade. É que tem pais que não contam para os filhos... crescem sem saber...

[...]

E assim foi, uma vez por semana ouvia-se uma história de Monteiro Lobato.
Certo dia, a professora sorrindo disse:
_ Hoje contarei a...do Saci Pererê.
Ele se assustou, pois não sabia que os brancos também sabiam sobre ele... e principalmente que havia um livro sobre o Saci. (JEKUPÉ, 200: 29)


O desejo de tecer a própria história, como quer o personagem, decorre da necessidade de combater as inverdades que os outros ensinam a respeito do seu povo, sua tradição, sua espiritualidade e sua história. Desse modo, o personagem Karaí diferencia-se de outros à medida que a leitura implica um reconhecimento de si mesmo como leitor participante, embora a sua história de vida e as narrativas que certificam a sua indianidade não sejam codificadas com o devido respeito conforme ele espera. Afinal, há muitos sacis: os filhos da taquara, outros dos guarani, outros e mais outros transfigurados em orixás, ou no Dono das Ervas que se espalham no Brasil, na África ou na religião africana em Cuba – como observa Mindlin, no prefácio para O saci verdadeiro.
A representação do saci em outro – um indiozinho – configura um dos aspectos chaves no conto, à medida que o personagem Karaí trava uma luta identitária problematizando a relação entre ficção e história, tradição oral e escrita, leitura e escrita, autor e leitor para reconstruir o seu lugar de índio. As desigualdades na escola sinalizam a ausência de reconhecimento desse lugar ao personagem Karaí: um leitor, ao que parece, mais inquieto que os outros alunos da escola, como podemos observar no exemplo que segue:

De repente a professora pegou o livro e mostrou a capa, que tinha o desenho do Saci-Pererê. Karaí sentava na frente e pôde ver muito bem. Assustou-se e ficou espantado. É que o Saci-Pererê que viu na capa era um negrinho.
De repente a professora começou a dizer:
_ Vocês já ouviram falar do Saci-Pererê?
_ Sim – disseram todos.
_ Bom, o Saci é um negrinho pequeno e que anda com um cachimbo fumando e assustando as pessoas. Ele gosta de aparecer à noite para fazer suas artes.
_ Então ele é ruim, professora – disse um dos alunos.
_ Sim, diz a história que ele tem contato com o demônio.
Karaí só ouvia, espantado com tudo o que escutava. Sua mãe falava bem dele e dizia tudo ao contrário que ouviu da professora. Saci é um índio e a professora dizia que é um negrinho.
A professora continuou a dizer:
_ O Saci gosta de arte mesmo, é por isto que ninguém gosta dele. E ele nasce da taquara e tem muitos irmãos...
Quando a professora terminou, os alunos ficaram fazendo mais perguntas e ela respondia todas. Só Karaí é que não fez nenhuma pergunta.
Quando bateu o sinal ele foi até à biblioteca e pegou o livro para ler. Queria saber direito da história do Saci. Só saiu de lá quando terminou e ao chegar na aldeia, sua mãe ficou notando que ele estava triste, mas não perguntou nada, deixou-o quieto meditando. (JEKUPÉ, 2000: 30).

Em depoimento pessoal, o próprio Olívio Jekupé fala de sua mestiçagem, de sua admiração por Jorge Amado, Carlos Drummond e Darcy Ribeiro, além do convívio que mantém com outros escritores indígenas; entre esses, encontra-se Daniel Munduruku – autor da crônica à qual se refere o diálogo entre o amigo guaranietzscheano e um pastor.
A intolerância de que trata o referido diálogo converge para uma questão mostrada por Leopoldo Zea (1992), ao afirmar que muito embora, pelas circunstâncias históricas, o homem tenha se distanciado de suas origens, negar-lhe a identidade é rebaixa-lo à condição de objeto. Consciente desse desafio, o escritor Olívio Jekupé construiu seus personagens, mostrando do ponto de vista de uma contadora de histórias (mãe de Karaí) que o outro é uma invenção bem diferente do personagem indígena que os antepassados sempre falaram.
A mãe de Karaí explica: “- Eu já ouvi alguns índios dizendo que os brancos falam muito do Saci, este que eles criaram. Na verdade, não entendo porque eles criaram esta história, usando o nosso Saci e transformando tudo ao contrário” (JEKUPÉ, 2000: 30).
Vejamos algumas passagens da história em que o autor, por meio dos seus personagens, discute os valores convencionados considerando a diversidade cultural, pois os valores não são “perfeitamente”[4] legíveis para todos:

_ A professora falou e também li no livro que ele tem contato com o Demo... coisa ruim.
_ Não liga para isso, eles inventaram tudo.
Depois de ouvir aquilo, ficou mais encucado, pois sabia a vida do saci de dois lados. Um saci que é índio e outro que é negro. Não é que ele não acreditava em sua mãe, mas sua mente ficou confusa.

[...]
_ Quem estará certo? E o Saci é um índio ou um negro?
(JEKUPÉ, 2000: 31-32)

No trecho que acabamos de observar está explícito que no discurso do outro (da professora e dos alunos não-índios) os atributos situam o negro como força negativa. Daí o silêncio do menino Karaí à pergunta da personagem professora; um silêncio para contrariar o eixo do saber dominante, na visão estereotipada que se tem, em geral, a respeito do negro e do índio.
Não é à toa que, em seu prefácio, Mindlin evoca a simpatia e menos o medo do Saci, mostrando-nos que o livro de Olívio Jekupé configura um espaço de multissignificação, ao trazer para o conto indígena um personagem que habita o universo africano e que em “sua negritude [se] faz símbolo brasileiro positivo, contrabalançando o preconceito que infelizmente ainda não conseguimos erradicar do país” (MINDLIN, 2000: ix).
A antropóloga comenta que o escritor Olívio desempenha seu papel de representante de uma sociedade de tradição oral, ao recontar as histórias de encantamento que ouvira dos parentes que vivem nas terras Guarani. De acordo com a sua opinião, a novidade desse livro reside na insistência do autor em construir o personagem: um Saci indígena, descoberto por Olívio nas aldeias
Essas observações são fundamentais para que se leia o escritor Olívio sem preconceito, pois não é pelo significado pejorativo - ladino, mau caráter, dissimulado como apregoam os dicionários com relação ao ser mestiço - que o personagem de Jekupé deve ser visto. Ora negro, ora índio, o Saci nos ensina a curar os preconceitos e as discriminações contra os quais Mindlin mostra muitos caminhos ressaltando os estudiosos Bartomeu Meliá, Curt Nimuendaju, Egon Schaden, Pierre Clastres e muitos outros que contribuem para a “cultura dos Guarani [ser] uma das mais impressionantes e bem documentadas do Brasil, do Paraguai e da Argentina” (MINDLIN, 2000: xi).
Mas ainda é precária a divulgação do pensamento indígena e escassos os estudos a respeito da Literatura Indígena contemporânea no Brasil. Isso reflete "o que se vê no momento [que] é a grande mídia tentando esconder a história e mostrar um Brasil sem problemas", diz Jekupé (apud O Mensageiro, 2000: n. 123, 21). Não resta dúvida de que essa situação dificulta o desenvolvimento de pesquisas sobre o assunto e põe em risco os direitos literários, os direitos lingüísticos e a competência comunicativa[5] dos povos indígenas, pois estamos falando dos Direitos Humanos. O pensamento indígena (literário ou não) tem um lugar na comunicação intercultural, mas os textos de autoridade excluem a pessoa do índio - seja como autor, ou ente "comunicador da paz", como observa Lins[6] a respeito da necessidade de Educar para os Direitos Humanos.


Pensemos, então, nos escritores indígenas (entre eles, Olívio Jekupé) que - entre a aldeia e os centros urbanos - se juntam a leitores (crianças e adultos) com o objetivo de partilhar as “contação de histórias” dos tempo antigos e atuais. Pelo relato de suas experiências, esses contadores de história podem ser considerados guardiões do pensamento dos homens e/ou das mulheres que na aldeia são considerados curadores, ou os “maiores defensores natos na teoria e na prática” das tradições indígenas: o pajé, a pajé, como diria Eliane Potiguara.
O Saci indígena configura a construção de outro mundo possível. No diálogo o personagem-pensador envereda e nesse caminho se reconhece. Desse modo: “ele foi para sua casa e muito contente, porque viu pelos seus próprios olhos que ele [o Saci verdadeiro] existe mesmo, e que é um índio” (JEKUPÉ, 2000: 33).
O personagem/pensamento de Olívio Jekupé não constitui uma presença ameaçadora, pelo fato de ser mestiço. Sendo escritor e poeta, o seu pensamento é plural, verdadeiro, quão semelhante ao ponto de vista do seu pensador-curumim que expressa um ser à margem das raízes. Se as circunstâncias obrigam-no a sobreviver no contato com o outro (o não-índio), ele se nega a desistir[7]; escrevendo.
A “contação de histórias” em Olívio Jekupé imprime-se numa atmosfera de respeito, liberdade e compromisso mútuo entre o ouvinte e o contador de histórias, no sentido de que aquele que ouve traz, também, à cena a história/memória para compreender o presente com os seus desafios e que exige de todos (brancos, negros e índios) o respeito à natureza e à pessoa humana. Nessa perspectiva, tudo faz parte de tudo. A cosmovisão indígena não separa o rio e a árvore, o saci negro e o indígena, o pajé e poeta, a nuvem e a criança


(*) Este capítulo é parte da minha tese de Doutorado em Letras, intitulada: Contrapontos da literatura indígena contemporânea no Brasil; defendida na UFPE, em abril de 2003.
[1] Cf. Associação Guarani Nhe'em Porã. Disponível em: <http://www.culturaguarani.hpg.ig.com.br/historico.htm>. Acesso em: 20 out. 2002.
[2]Depoimento pessoal do autor em resposta à carta que eu escrevi, perguntado se era ele mesmo o índio nietzscheano mencionado na crônica de Daniel Munduruku, no livro Histórias de índio, op. cit.
[3]A noção de local ‘atua no interior da lógica da globalização’. Portanto, não deve ser confundida com ‘localidades bem definidas’, Cf. Hall (1999: 78).
[4]Segundo Bordini e Aguiar (1993: 16), “O conjunto de valores convencionados é chamado cultura e por isso mesmo perfeitamente legível porque criado pelos homens”.
[5]Alusão ao tema estudado por Gilda Maria Lins de Araujo Lins e Francisco Gomes de Matos (UFPE).
[6]Comentário pessoal de Gilda Maria Lins de Araujo, referindo-se ao discurso indígena e à disciplina Educar para os Direitos Humanos, ministrada pela Comissão de Direitos Humanos D. Helder Câmara, na UFPE.
[7] Cf. SOARES, Sidney, op. cit. p. 5.

4 comentários:

UMA ET?????? disse...

Oi, adorei este post. Gostei tanto que fiz referencia a ele no meu blog, num post sobre literatura indigena. Vc já pensou em um abaixo assinado, para que o mec passe a incluir a literatura indigena em suas referencias? a internet esta aí para isto mesmo. Quem sabe se através dos blogs(coloco o meu a disposicao e do orkut e outros similares nao se conseguiria alguma coisa? e mil deculpas se a sugestão for boba.
Um feliz ano novo pra voce.
Beijos
Milu

Educadora em Direitos Humanos disse...

Estimado Olivio: me deixa feliz ver meu artigo acerca de identidade e outridade indígena publicado no seu blog. Obrigada pela atenção. Paz e bem em Nhande Rú, Graça Graúna

Deborah Icamiaba disse...

Caro Olívio,
Sei que faz tempo que vc não escreve, mas gostaria de fazer contato contigo. Estou organizando um sarau indígena e quem sabe vc não participa com a gente? Tenho um blog de inspiração indígena também: ressurgenciaicamiaba.blogspot.com
mande notícias.
Deborah

Ademario disse...

Estimado Olívio Jecupé, salve!

A angústia a companha o ser humano como uma sombra. Ora aqui ou alí - mais cedo ou tarde. Ela é uma alfombra mas às vezes assombra. Sermos mestiços neste mundéu é desassossegamento. Nos cobram tudo. Deviam pelos nos respeitar. Creio imensamente que você é aquilo que faz - e vc faz muito pelos Povos Indígens em particular os Guarani. Fica em paz com Nhanderu Eté! Emfim, este povo também que acolhe e te admira e quer na sua comunidade - no mais, paradodiando o mestre Gonzaguinha: "viver e não ter a vergonha de ser... o que é no que acredita ser".

Saúde, paz, e Yvy maraey, ainda está estendendo a sua teia!

Abraço,

Ademario Ribeiro - ONG ARUANÃ - Bahia