segunda-feira, 1 de agosto de 2016

foi maravilhoso ter recebido um convite para participar de um evento na unicamp, e foi eu e meu filho Jeguaka Mirim o pequeno kunumi escritor e cantor de rap.

terça-feira, 22 de setembro de 2015



esse é um dos meus novos livros, ele conta uma bela história onde poderão conhecer o saci, que na verdade esse personagem é um índio, o protetor da floresta, que ajuda a quem pede seu apoio. mas quem ler esse meu novo livro, aos poucos irão entender que a história do saci mostrada no Brasil é bem diferente daquela mostrada pelo monteiro lobato.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

quinta-feira, 21 de maio de 2015

 
ESSE LIVRO FOI EDITADO EM 1999, POR ISSO PUBLIQUEI COM ESSE TITULO- 500 ANOS DE ANGÚSTIA, UM LIVRO DE POEISAS, MAS MUITO CRÍTICO, POR ISSO A DIFICULDADE DE PUBLICAR NUMA EDITORA E POR ISSO ESTOU REEDITANDO MAIS UMA VEZ NUMA EDITORA INDEPENDENTE, E QUEM QUISER COMPRAR O LIVRO PODERÁ ENCONTRAR AQUI NA ALDEIA MESMO, OU PELO CORREIO.
OBRIGADO.

www.oliviojekupe.blogspot.com


quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

O valor histórico da literatura nativa

Jornal GGN – O Pindorama entrevistou Olívio Jekupé, autor de literatura nativa com vasta obra, que compartilha a sua cultura ancestral à partir da própria vivência. “Comecei a escrever em 1984, eu era garoto, bem na época da ditadura, e naquela época aconteciam muitas coisas contra os povos indígenas, muitas invasões, mortes, estupros e era uma época que nada acontecia pra mudar essa situação, e eu achei que teria que escrever algumas coisas a respeito”.
Enviado por Nilva de Souza
Entrevista: Olívio Jekupé
Por Francélia Pereira
Do Pindorama
Na Grécia Antiga, Homero reuniu as histórias da cultura oral de seu povo em suas obras Ilíada e Odisseia. Essas obras foram registradas através da escrita imortalizando esse conhecimento e inaugurando uma nova fase que fortaleceu as bases para o desenvolvimento da cultura helênica.
Aqui no Brasil também temos nossos Homeros, eles são os autores da Literatura Indígena, um “novo” gênero que vem ganhando espaço em nossa sociedade, registrando através da escrita a cultura ancestral da nossa terra.
Antes da Literatura Indígena, o que havia eram pesquisadores e curiosos que tentavam registrar a cultura ancestral em obras que descaracterizavam as narrativas e, como disse Daniel Munduruku:
Os conhecimentos de nossos avós foram deixados para nossos netos de forma oral como uma teia que une o passado ao futuro. Esta fórmula pedagógica tem sustentado o céu no seu lugar e mantido os rios e as montanhas como companheiros de caminhada para nossos povos. Tais conhecimentos, em forma de narrativas – chamado mitos pelo ocidente – foram sendo apropriados por pesquisadores, missionários, aventureiros, viajantes que não levaram em consideração a autoria coletiva e divulgaram estas histórias não se preocupando com os seus verdadeiros donos. (Fonte: Povos Indígenas no Brasil)
Mas hoje podemos contar com autores que vivem a cultura ancestral desde o nascimento, o que garante autenticidade às obras. Dentre esses autores já surgem grandes nomes, como Daniel Munduruku, Kaká Werá, Eliane Potiguara e Olívio Jekupé.
Autor de obras como Xerekó Arandu: A morte de Kretã, O Saci verdadeiro, Iarandu o cão falante, Tekoa, As queixadas e outros contos guarani, entre outras, Olívio Jekupé tem registrado a cultura de seu povo e trabalhado no sentido de garantir que as novas gerações possam dispor de um material de qualidade, que tenta mostrar ao leitor uma História do Brasil sob a visão dos povos ancestrais da nossa terra.
Ficamos honrados em ter conseguido uma entrevista com Olívio Jekupé, autor que merece grande respeito e admiração, pois seu nome já entra para a nossa História como um dos pioneiros na Literatura Indígena do Brasil, que o autor prefere denominar como Literatura Nativa.
Segue a entrevista.
PINDORAMA – Você escreve desde a década de 80 e a Literatura Indígena só começou a ganhar algum destaque a partir da década de 90, o que o torna um dos escritores mais antigos nesse gênero. Fale um pouco sobre sua trajetória na Literatura. O que o levou a começar a escrever? Houve algum tipo de incentivo no início de sua carreira? Como foi seu contato com outros escritores da Literatura Indígena?
OLÍVIO JEKUPÉ – Bom, gosto de falar que nós indígenas escrevemos literatura nativa, literatura indígena é outra coisa.
Mas quero dizer que comecei a escrever em 1984, eu era garoto, bem na época da ditadura, e naquela época aconteciam muitas coisas contra os povos indígenas, muitas invasões, mortes, estupros e era uma época que nada acontecia pra mudar essa situação, e eu achei que teria que escrever algumas coisas a respeito, por isso comecei a escrever poesias defendendo nosso povo, era uma forma de eu desabafar, pensava, porque eu ficava com ódio de saber das coisas que aconteciam no Brasil, por isso vi que a vida de um escritor seria muito importante, porque a gente poderia se defender através da escrita, mas naquela época nunca tinha ouvido falar de um escritor indígena, eu lia muitos livros sobre índio, mas eram trabalhos de antropólogos e historiadores. Por isso eu lia e aprendia muito com isso, mas acreditava que nós indígenas tínhamos capacidade pra escrever também, mas foi uma luta; escrevia, mas nada de conseguir publicar um livro; só 9 anos depois eu consegui publicar meu primeiro livro, como não tinha nenhuma chance de publicar um livro então eu procurei uma editora que publicasse independente, e assim fiz. E foi através de um livro pago por mim mesmo que publiquei um trabalho, alias outros livros também foram assim, diferente de hoje onde algumas editoras me procuram e outros autores indígenas de renome internacional também são procurados.
PINDORAMA – Em suas entrevistas fica sempre evidente sua preocupação em relação à formação dos professores quanto ao conhecimento da História e da cultura indígena. Fale um pouco sobre suas obras voltadas para a Educação.
OLÍVIO JEKUPÉ –  Sempre acreditei que os professores tem que ser os primeiros a lerem nossos livros, porque sei que nosso País, a questão indígena é muito pouco conhecida e sei que se os professores não tiverem conhecimento irão inventar histórias e mais histórias, e com isso pode crescer ainda mais o preconceito que se tem no Brasil.
Por isso minhas obras todas mostram um conhecimento, e sei que poderá ajudar muito os professores, assim como os livros de outros autores. Pois o mundo indígena tem que ser conhecido mesmo, por isso, é que falo que a lei 11.645 está aí, os professores são obrigados a falarem sobre os povos indígenas, mas o que eles irão falar? E como hoje existem vários escritores indígenas, é importante que as secretarias de educação possam conhecer os escritores indígenas que tem no momento, índios que são da cidade e os índios das aldeias, e que irão mostrar conhecimento do seu povo, isso é, cada índio escritor pertence a uma nação, por isso sei que ele seguirá o seu costume.
PINDORAMA – A cultura nacional tem se enriquecido muito com a produção dos autores da Literatura Indígena que, felizmente, tem crescido a cada dia. Mas esses trabalhos ainda não alcançaram um lugar de destaque no mercado, o que, infelizmente, acontece com a maioria das obras de qualidade em nosso país. Você acredita que essa situação possa mudar? Como?
OLÍVIO JEKUPÉ –  Sim, eu sei que está crescendo, mas como eu sou um dos antigos escritores, naquela época nem existia, mas hoje tá surgindo cada vez mais um escritor indígena.
Mas sei que esse crescimento é lento mesmo, mas não devemos desanimar, porque o fruto já foi plantado e agora ele irá crescer aos poucos, mas que cresça com força, com algo que ajude mesmo, que é a conscientização.
PINDORAMA – Seus filhos, Werá Jeguaka Mirim e Tupã Mirin também estão produzindo obras literárias. Fale um pouco sobre os trabalhos deles.
OLÍVIO JEKUPÉ –  Sim, os dois estão escrevendo, sei que eles são novos, mas desde pequeno eu conto histórias pra eles, e minha mulher também sempre contou, e nisso logo que eles aprenderam a escrever, não demorou muito tempo e os dois começaram a escrever, e os dois tem um livro publicado juntos, que se chama: Contos dos curumins guaranis, editora FTD, e o Werá Jeguaka Mirim tem um livro sozinho pela editora panda books, que se chama, Kunumi Guarani. Mas acredito que esse ano eles irão publicar mais algum livro. E para os meus filhos está sendo mais fácil, como as editoras estão abrindo caminho pra esse tipo de publicação, meus filhos entram com mais facilidade, eu vejo os textos deles e mando pras editoras e se gostarem aí eles publicam, aliás, meu filho Werá Jeguaka Mirim ficou muito conhecido por fazer parte da abertura da copa e no momento ele estava com uma faixa escondida e que saiu no mundo todo, e a faixa estava escrito demarcação, foi um ato muito corajoso por parte dele que até eu fico emocionado quando vejo os vídeos na internet. Aliás, eles são os escritores indígenas mais jovens do Brasil, e quando eles assinaram o contrato pela primeira vez com a editora FTD, o Tupã tinha 11 anos e o Werá tinha 10.
PINDORAMA – O processo histórico da formação do Brasil envolve a chegada de povos estrangeiros que trouxeram suas culturas e, em contextos diversos, acabaram se apropriando do território e impondo seus estilos de vida. A cultura nativa da nossa terra acabou sendo “silenciada”, mas nunca morreu; e mesmo entre os brasileiros que não vivem em aldeias essa cultura ainda pode ser observada na forma como falamos, nas histórias contadas por nossos avós, nos nomes de ruas, rios, cidades, alimentos; na nossa música e no nosso jeito de ser. Isso acontece porque nossa Nação vem de uma matriz indígena, já que os estrangeiros que aqui chegam desde 1500 acabam gerando filhos com a população desta terra, filhos que carregam em seu sangue a ancestralidade indígena. Mas poucos conseguem ter consciência dessa ancestralidade e, infelizmente, ainda enxergam os povos que nossa sociedade chama de “indígenas” como estrangeiros no Brasil, o que gera discriminação e preconceitos. Você acredita que a Literatura Indígena pode contribuir para um maior esclarecimento da população brasileira quanto às nossas origens, e você acredita que isso possa ajudar a conscientizar a sociedade brasileira sobre a importância de preservar o conhecimento ancestral?
OLÍVIO JEKUPÉ –  Com certeza, pois essa é a missão da literatura nativa como falo, trazer conhecimento pra todos os brasileiros, e que possa valorizar ainda mais os povos indígenas, porque aqui no brasil a discriminação é muito grande e muito por falta de conhecimento, e com nossos livros chegando nas mãos dos brasileiros eu acredito que isso vai mudar aos poucos. E ao mesmo tempo, é importante que chegue nas aldeias também, porque os governos dos estados enviam livros direto pras aldeias, mas eles enviam livros que não tem nada  a ver com a cultura indígena e isso é mal, porque enquanto os brasileiros estudam a cultura indígena, os indígenas estão estudando literatura dos não indígenas, e as crianças nas aldeias precisam estudar cultura tradicional. Sei que hoje no Brasil temos muitos escritores indígenas até famosos no mundo internacional e nacional, e sei que isso faz com que a sociedade valorize ainda mais o nome indígena que é tão maltratado pela sociedade.
PINDORAMA – Hoje há uma tendência entre os novos autores de utilizar elementos da cultura indígena em seus trabalhos. Desde o lançamento de Meu destino é ser Onça, de Alberto Mussa, muitos autores procuram desenvolver uma pesquisa antes de concluir suas obras. Esse processo é muito importante para que, cada vez mais, a sociedade brasileira conheça e, assim, possa respeitar as tradições ancestrais; mas também torna mais importantes ainda as obras produzidas por autores da Literatura Indígena, como você e muitos outros escritores indígenas, já que por mais séria que possa ser uma pesquisa ela jamais substitui a experiência de viver a cultura ancestral desde a infância, como é o caso de vocês, e, dessa forma, suas obras estão se tornando referência no sentido de preservar o conhecimento e a cultura ancestral em seu estado mais autêntico, sem as distorções que ocorrem em trabalhos de admiradores da cultura que, muitas vezes, não a compreendem direito. Qual é a sua opinião sobre esses novos trabalhos?
OLÍVIO JEKUPÉ – Sim, é verdade o trabalho hoje entre muitos pesquisadores; muitos deles me procuram, assim como outros autores indígenas que são procurados, pois isso é importante porque mostra que nossa literatura nativa está sendo valorizada cada vez mais, pois um trabalho de campo tem que ser muito bem feito e eu sei que nosso conhecimento pode ser respeitado, e nós que vivemos numa aldeia sabemos de como é o dia a dia na comunidade e por isso nossa literatura tem seu valor com isso; pois escrevemos seguindo um aprendizado cotidiano, não uma ficção em cima de outra ficção, e que com isso pode ser criado coisas que não faz parte da realidade, e do contrário pode trazer preconceito.
PARA MAIS INFORMAÇÕES SOBRE AS OBRAS DE OLÍVIO JEKUPÉ:
E-mail: oliviojekupe@yahoo.com.br
Blog: www.oliviojekupe.blogspot.com

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

 
 
Werá Jeguaka Mirim, o pequeno escritor e que esse ano publicou dois livros, um - Kunumi guarani editora panda books, outro é - Contos dos curumins guaranis, editora FTD
Sei que muitos já devem ter ouvido falar desse pequeno guarani que fez parte da abertura da copa de 2014
bom, agora podem conhecer o livro dele
 
 
 
 
 






Bom, já esse livro acaba de ser publicado- 2014, é um dos meus novos livros e acredito que vai ser de grande leitura para os alunos e aos professores do Brasil.
É da editora Leya.


domingo, 10 de novembro de 2013

A Mulher que virou Urutau

http://www.youtube.com/v/z0AK_YEziPQ?version=3&autohide=1&autoplay=1&showinfo=1&attribution_tag=jjZsw3SDtMCrD_JyFvPQ1A&feature=share&autohide=1

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Flipinha em Julho de 2013- Olívio Jekupe Notícia Autores debatem na Flipinha a origem de suas histórias 10/07/2013 15:50:12 Ricardo Ramos Filho e Olivio Jekupé compartilharam com público o modo como trabalham narrativas Neto de Graciliano Ramos, escritor homenageado na 11ª Flip, Ricardo Ramos Filho contou para o público da Flipinha na sexta-feira (5) de onde surgem suas histórias para livros e contos. O encontro também teve presença do autor indígena Olivio Jekupé e foi mediado por Bernadete Passos, da Associação Casa Azul. Ramos disse que as histórias podem surgir de lugares variados, como por exemplo um menino triste porque seu cachorro morreu. “A literatura nasce da atenção do escritor com o mundo à sua volta”, disse. “A ideia começa a atormentar a cabeça dele, então é hora de pôr para fora no papel.” Jekupé, por outro lado, aposta na tradição oral de seu povo para contar histórias. “Sempre houve escritores indígenas, mas não escritores de papel”, comentou o autor, que estava acompanhado de dois dos seus filhos. “O que eu fiz foi pôr no papel essa tradição antiga.” Ramos ainda lembrou a importância de ler muito para poder escrever, além de uma disciplina na profissão. “Não acredito em inspiração, acredito em trabalho. Os escritores têm primeiro o trabalho mental, na hora de inventar histórias, mas depois tem que sentar e escrever.” Para Jekupé, a imaginação precisa ser livre para surgirem boas histórias. “Quando meu filho era pequeno, contava muitas histórias para ele na hora de dormir. Mas um dia as histórias que eu sabia acabaram, então tive que inventar novas”, revelou.

sexta-feira, 28 de junho de 2013

olivio jekupe na flipinha

dia 4 de julho- flipinha nesse dia estarei dando uma palestra na flipinha em paraty, por isso me sinto orgulhoso e poder falar com os ouvintes que desejam conhecer um pouco da literatura nativa, e que tenho certeza que podemos mostrar muitas histórias lindas, por isso quem puder ir me conhecer e ver meus livros estejam lá. mas também estarei passeando pela aldeia paraty mirim, pois quem for de fora e que não conhecem a aldeia, de uma passada por lá também e poderá comprar alguns livros dos nossos parentes guarani. bom, até lá então, e sucesso pra todos os escritores que estarão lá mostrando seus belos trabalhos... olivio jekupe.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

associação dos escritores e artistas indigenas

O sucesso da literatura nativa- lento mais andando. Além da própria aldeia Escritores indígenas publicam produções bilíngues e mostram que a língua nativa também deve ser registrada Aline Salgado Desde 2003, com o Encontro Nacional de Escritores Indígenas, promovido pelo Salão do Livro Infantil e Juvenil, escritores indígenas começaram a aparecer mais, seja por meio de poesias, romances, ficções ou filosofia. E o melhor: em português e em suas línguas nativas. Restritos até o momento à literatura infantil, os livros bilíngues deverão ser encontrados nas bibliotecas das escolas do país nos próximos anos. Com a lei que incluiu o ensino da cultura e da história indígena e africana na sala de aula, os professores precisarão de recursos para trabalhar a temática. Pelo menos é o que esperam os escritores indígenas, como Olívio Jekupé. Morador da aldeia Krukutu, em São Paulo, Olívio escreve desde 1984 e já lançou nove livros, sendo dois bilíngues: Ajuda do Saci (Ed. DCL) e A mulher que virou Urutau (Ed. Panda books). “Alguns acham bonito publicar na língua nativa porque acreditam que o branco na cidade vai gostar. Mas, como tudo depende de preço, a produção bilíngue acaba ficando restrita à literatura infantil”, avalia Olívio, que torce por uma mudança vinda do governo. “Quando o Estado compra os livros e manda para as aldeias, ele acaba estimulando a produção e o aparecimento de mais índios escritores. Lendo o que produzimos, os professores têm uma base maior de conhecimento para transmitir aos alunos, contribuindo para acabar com o preconceito contra o nosso povo, ainda visto como atrasado e preguiçoso”, destaca Olívio. Principal nome do movimento de autores indígenas, Daniel Munduruku acredita que será preciso, no entanto, pelo menos uma década para que a lei de 2008 comece a surtir o efeito esperado: o fim do estigma contra os índios. “Só com a formação de educadores com uma visão diferenciada sobre os índios é que teremos uma mudança na sociedade. Como a lei é federal, é preciso que o governo federal exija a atualização desses professores também, algo que nós não temos encontrado nas secretarias de Educação”, critica Munduruku. Leia também Entrevista com Daniel Munduruku Dossiê 'Somos índios' Segundo o Censo 2010 do IBGE, 896 mil índios, de 305 etnias, vivem no Brasil preservando 180 línguas nativas. Desse total, apenas 35 são escritores, de acordo com dados do Núcleo de Escritores e Artistas Indígenas, vinculado ao Instituto Indígena Brasileiro para Propriedade Intelectual. Segundo a instituição, estima-se que a produção literária chegue a pouco mais de 200 publicações, incluindo produções impressas por universidades e nas aldeias. Da etnia potiguar, a escritora e professora da UPE, Graça Graúna, defende a criação de uma política editorial de Estado para estimular a produção literária indígena. “Vivemos um boom da literatura indígena hoje, mas poderia ser melhor”, argumenta ela. “Infelizmente há ainda muito preconceito literário no mercado. Se as editoras se abrissem mais para as produções bilíngues, acabaríamos com o estigma, porque cada palavra que escrevemos tem alma”.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Escritor defende literatura indígena para embasar estudo de culturas tradicionais Publicado 19 de abril de 2013.São Paulo (SP) – Quando era professor, Olivio Jekupe precisava provar para os alunos que tinha conhecimento da disciplina para que os estudantes passassem a respeitá-lo. “Quando eles duvidavam, eu começava a falar difícil e eles não entendiam nada”, relembra sobre a época em que precisou lecionar para se sustentar como estudante de filosofia. Hoje, é Olivio que se preocupa com a preparação dos professores. Na semana em que lança o seu 12º livro de literatura, o índio guarani defende a difusão das obras escritas por indígenas como forma de embasar o estudo da história e da cultura desses povos nas escolas. “Os professores vão ter que falar sobre nós. O que eles vão falar? Se não têm assunto, eles vão falar um monte de besteiras sobre a gente. Então, por isso, que é importante o surgimento dos escritores indígenas”, diz Olivio a respeito do cumprimento da Lei 11.645 de 2008, que determina a inclusão das culturas negra e indígena no ensino médio e fundamental. Nascido em 1965, em Nova Itacolomy, interior do Paraná, Olivio começou a estudar filosofia em 1988, na Pontifícia Universidade Católica de Curitiba. Morava de favor com uma família da etnia Kaingang e vendia artesanato para se sustentar. Encorajado pelos amigos, começou a dar aulas para o ensino fundamental. Com dificuldades financeiras, veio para a capital paulista, para estudar gratuitamente na Universidade de São Paulo (USP). Apesar de ter investido mais quatro anos na filosofia, não conseguiu concluir o curso. “Vim para a USP porque era de graça, mas piorou, ficou mais caro, porque na USP o curso de filosofia é muito pesado. Na USP você tem que ler muito e gasta em tudo”, lamenta. Olivio permaneceu na cidade e se consolidou como escritor. Atualmente, não só escreve, como incentiva outros índios nos rumos da literatura. Assim, ele acredita que vai conseguir derrubar as mentiras que foram ditas contra os povos da terra ao longo dos últimos séculos. Inverdades concretas nos monumentos que adornam a cidade de São Paulo “É um absurdo. Você passa em Santo Amaro e vê o [bandeirante] Borba Gato. Depois tem o [bandeirante] Anhanguera. A história mostra que eles eram grande heróis porque matavam índios” reclama. “É por isso que a literatura [feita pelo] índio aos poucos vai chegando e os escritores indígenas vão começar a desmascarar essa coisa”. Morador da aldeia guarani Krukutu, em Parelheiros, extremo sul da capital paulista, Olivio conta que ao montar a sua última coletânea, As Qeixadas e Outros Contos Guarani, incluiu entre os escritores até mesmo a própria mulher, que é analfabeta. Segundo ele, uma forma de adaptar os contadores de história guarani aos novos tempos. “Havia os índios com o dom de guardar as histórias na cabeça, não é todo mundo que tem esse dom”. Para ele, a incorporação dos saberes e das tecnologias dos brancos é uma maneira de defender a cultura dos povos tradicionais. “Quando não tinha nada disso, eles falavam que o índio é atrasado. Quando a gente começa a pegar tudo isso, eles falam que o índio é aculturado, que está perdendo a cultura. Não, não está perdendo. Essas coisas que a gente usa hoje são uma forma de defesa”, disse na entrevista à Agência Brasil, que foi marcada pelo Facebook. Segundo o escritor, as bases da cultura indígena são a língua e a religião. Se isso for mantido, todo o resto pode ser usado para fortalecer a comunidade. Ele compara o uso das tecnologias pelos índios à maneira como os brancos se apropriaram dos saberes tradicionais dos índios, como a farinha de mandioca, a pamonha e o hábito de dormir em redes. “A tecnologia que os brancos inventaram a gente tem que usar para o bem. Assim como os brancos pegaram muita coisa dos índios e não fez mal”, enfatiza. “Temos computador, tem gente com celular, tem gente com Facebook, com e-mail. Hoje, a gente usa tudo isso, às vezes melhor do que os brancos”. Olivio explica que, além da literatura indígena, a aldeia tem outras ações para difundir a cultura guarani. “A gente tem um coral. A escola que quiser é só entrar em contato com a gente, que nós vamos até a escola, damos uma palestra e fazemos uma apresentação do coral para as pessoas entenderem como é a música guarani”, ressalta, sobre o trabalho que é gerido pela associação da comunidade. A organização jurídica formal foi a maneira encontrada pelos moradores da Krukutu de fortalecer a liderança tradicional do cacique e também garantir autonomia da aldeia, poder tratar dos próprios negócios sem intermediação da Fundação Nacional do Índio (Funai). Fonte: Agência Brasil

segunda-feira, 25 de março de 2013

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Escritores indígenas falam da importância da literatura nativa para a educação das crianças 12. 02. 2013 Literatura Olivio Jekupé contando histórias para crianças Por Carolina Cunha As crianças indígenas crescem ouvindo histórias contadas pelos velhos da aldeia. Escutá-las é parte fundamental de seu processo de educação. Essa cultura, que faz parte das raízes do povo brasileiro, também pode ser encontrada nos livros. O SaraivaConteúdo conversou com Daniel Munduruku e Olívio Jekupé, dois escritores que nasceram em aldeias e hoje escrevem literatura infantojuvenil de temática indígena, obras cada vez mais comuns nas livrarias e escolas. “Há uma mudança significativa no modo como o país vê seus povos ancestrais”, acredita Daniel, um dos principais escritores da literatura infantojuvenil do país. Nascido na Aldeia Maracanã (PA), ele já foi professor e contador de histórias. Estudou filosofia e hoje se empenha em preservar a cultura oral dos antepassados. Lua se esforça para entender a arte de fazer chover. Já Kabá Darebu aprendeu com os pais a olhar o voo dos pássaros para ver as notícias do céu. Os dois fazem parte da galeria de personagens de Daniel, inspirados nas histórias que aprendeu ainda garoto, com os pais e avós. “Me sinto como um educador que escreve. Costumo dizer que escrevo filosofia para crianças de todas as idades. Um adulto, se quiser ler meus livros, terá que fazer um exercício para ouvir suas vozes ancestrais. Isso as crianças fazem sem esforço”, diz o escritor. O elemento que costura grande parte das narrativas indígenas são os mitos, transmitidos desde tempos imemoriais. Para Daniel, essas histórias devem ser lidas com o coração e podem nos ajudar a compreender o mundo e a crescer de forma mais equilibrada. “O ser humano é formado por estes elementos que as histórias trazem: coragem e medo; amor e desamor; sofrimento e alegria. Somos forjados por sentimentos que se desdobram dentro da gente. Parte disso se dá por conta da construção dos mitos que carregamos conosco. Eles nos ajudam a compreender a nossa humanidade e a de outras pessoas”, diz o escritor. No caso da cultura indígena, as histórias mostram a força da natureza, a diversidade cultural, o respeito aos antepassados, a origem das coisas, os desafios de ser criança e tomar decisões. “Somos parte de uma teia que se inscreve dentro de cada pessoa. Somos PARTE, não donos. É isto que essa literatura que escrevemos traz de novidade: ela lembra que não podemos ser arrogantes, nos considerando o ápice da natureza. A educação só fará sentido se contribuir para que as crianças pensem uma forma nova de mantermos o planeta vivo. É isso que, de certa forma, os povos indígenas brasileiros continuam a nos ensinar”, diz o escritor. Ilustração do livro O Segredo da Chuva UMA ALDEIA GUARANI CHEIA DE HISTÓRIAS “Os índios comem seres humanos?”. A primeira vez que Olívio Jekupé escutou essa pergunta, ele ficou assustado. Percebeu que o preconceito e a falta de conhecimento das crianças sobre como os índios vivem ainda era muito grande. Morador da aldeia guarani Krukutu (SP), O escritor Olívio Jekupé já tem 13 títulos infantis publicados. Em sua comunidade, atua como educador e monitor de escolas visitantes. “A criança tem medo dos índios, e a literatura tem o poder de quebrar esse preconceito. Hoje nós somos poucos no Brasil. Somos apenas 500 mil. Pelos livros, ela vai entender mais da nossa cultura”, diz Olívio. Uma das obras de Jekupé é a Ajuda de Saci, na qual ele apresenta a lenda do protetor da floresta, que muitos não sabiam que veio dos guaranis. Em suas histórias, o escritor fala de mitos e de como muito da cultura brasileira – o chimarrão, o churrasco, o açaí, a farinha de mandioca, entre outros – veio dos primeiros habitantes do continente. Na aldeia Krukutu, as crianças são alfabetizadas em guarani e brincam o tempo todo. Desde pequenas, já aprendem a conviver com a natureza. Acender fogueira, pescar no rio, fazer armadilha, caçar. À noite, é comum os filhos irem para o Opy, a Casa de Reza. Nessa grande oca, existem os momentos de cânticos e cura, mas também de contação de histórias. “Nossos filhos sempre ouviram histórias. Só que antes, os livros eram os pajés. Graças aos antigos é que temos nossa história viva. Digo que o povo indígena sempre foi escritor, só que não sabia escrever. Hoje, a criança escuta, mas ela também lê”, diz Olívio. De tanto escutar histórias, o filho de Olívio, Jeguaká Mirim, decidiu seguir os caminhos do pai. Aos onze anos, ele acaba de escrever o seu primeiro livro. “Falo de um menino que viu a árvore falando sozinha, ele viu que a árvore estava com sede e foi trazer água. Ele tinha um pouco no copo, mas tomou tudo. E a árvore ficou muito triste”, diz o garoto, com dificuldade em se expressar em português. Assim como seu filho, Olívio acredita que as crianças sempre gostam de falar da natureza. “Elas gostam de bicho, da lua, do sol, das árvores. É dessa forma que a gente fala e enxerga o mundo. A vida da gente todo dia é uma história!”.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

terça-feira, 5 de junho de 2012Vida que Brinca e Informa Por Alcione Pauli e Maria Lúcia C. Rodrigues “Mais importante que as dores no corpo foi a liberdade que jamais tinha experimentado.” (Olívio Jekupé) Guerreiro da nação Guarani, Olívio Jekupé viajou pelo mundo e escreveu alguns livros. Escreve por acreditar que a tecnologia da escrita pode apresentar um olhar singular sobre os misteriosos povos indígenas. Ao apresentar “Tekoa conhecendo uma aldeia indígena”, Olívio nos convida a conhecer o mundo visto pelo povo guarani. Para fazer esta viagem o autor cria personagens fora da Tekoa e os insere lá no lugar no qual vivem os guaranis - conforme suas leis e costumes - para um mergulho silencioso e cuidadoso nos ritos e mitos que circulam nos alimentos, nos eventos e nas relações. Os personagens Eduardo e seu filho Carlos, Mirim e seu pai Tucumbó são os que fazem a informação aparecer. Carlos é um menino de São Paulo que passa um mês com o menino Mirim, filho do Cacique Tucumbó. Mirim apresenta tudo ao Carlos sem pressa. Passeia entre as bananeiras e os rios e vai ensinando coisas de seu povo. Sem querer ensinar revela os segredos que pode soltar. Carlos é envolvido pelo pio da Coruja e adormece entre os guaranis. Depois de um sono revigorante descobre o que é Tekoa, poi-poi, yvira nhex, petynguá, mboy, tokoiró... os dias passam e ao retornar para sua casa, em São Paulo, leva em sua memória a... “Saudade é uma distância que não se mede em quilômetros. Aquela gente tão igual e tão diferente. Um povo cuja cultura é tão antiga e cheia de sentidos.” (p. 27). Mais do que a informação por trás do enredo está a riqueza poética das imagens que o ilustrador Maurício Negro cria para o livro, que já em sua capa apresenta um emaranhado de signos mesclados nos tons terrosos. A viagem do menino não começa na palavra, o leitor sabe que há um deslocamento do personagem pelas marcas de pneus, atravessando as páginas e mapas. Negro constrói suas imagens com elementos naturais como: folhas, terra, palha, sementes que aliados à fotografia e ao grafismo, seja por tinta ou por desenho, juntam-se à técnica antiga do pirógrafo que, com sua ponta fina e incandescente, queima a madeira, tatuando-a definitivamente. Por que não dizer que as ilustrações da obra são uma salada de expressões plásticas que sintetizam a riqueza da cultura indígena brasileira? Cada página do livro traz uma novidade em termos de cores, traços e técnica empregada, tal qual é a novidade encontrada por Carlos - a cada dia passado na aldeia guarani. A plasticidade das ilustrações para a obra é latente; é um convite a nos deleitarmos com os minuciosos detalhes, com as formas e cores da natureza que invadem as páginas do livro. Assim é Tekoa: um texto com vida que brinca e informa. FICHA TÉCNICA: Obra: Tekoa conhecendo uma aldeia indígena Autor: Olívio Jekupé Ilustrador: Mauricio Negro Editora: Global  Postado por Prolij / Univille às 08:15 Marcadores: Alcione Pauli, Cultura Indígena, Maria Lúcia Rodrigues, Resenhas

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

É preciso que a sociedade brasileira de um orte apoio aos nossos parentes kaiowa, pois eles já sofreram muito e precisam recuperar o que lhes foram roubados... Olivio Jekupe- 10/2012 10h22- Atualizado em 23/10/2012 17h06 tamanho do texto A- | A+ “Decretem nossa extinção e nos enterrem aqui” A declaração de morte coletiva feita por um grupo de Guaranis Caiovás demonstra a incompetência do Estado brasileiro para cumprir a Constituição de 1988 e mostra que somos todos cúmplices de genocídio – uma parte de nós por ação, outra por omissão ELIANE BRUM inShare. | | Eliane Brum, jornalista, escritora e documentarista. Ganhou mais de 40 prêmios nacionais e internacionais de reportagem. É autora de um romance - Uma Duas (LeYa) - e de três livros de reportagem: Coluna Prestes – O Avesso da Lenda (Artes e Ofícios), A Vida Que Ninguém Vê (Arquipélago Editorial, Prêmio Jabuti 2007) e O Olho da Rua (Globo). E codiretora de dois documentários: Uma História Severina e Gretchen Filme Estrada. elianebrum@uol.com.br @brumelianebrum (Foto: ÉPOCA) - Pedimos ao Governo e à Justiça Federal para não decretar a ordem de despejo/expulsão, mas decretar nossa morte coletiva e enterrar nós todos aqui. Pedimos, de uma vez por todas, para decretar nossa extinção/dizimação total, além de enviar vários tratores para cavar um grande buraco para jogar e enterrar nossos corpos. Este é o nosso pedido aos juízes federais. O trecho pertence à carta de um grupo de 170 indígenas que vivem à beira de um rio no município de Iguatemi, no Mato Grosso do Sul, cercados por pistoleiros. As palavras foram ditadas em 8 de outubro ao conselho Aty Guasu (assembleia dos Guaranis Caiovás), após receberem a notícia de que a Justiça Federal decretou sua expulsão da terra. São 50 homens, 50 mulheres e 70 crianças. Decidiram ficar. E morrer como ato de resistência – morrer com tudo o que são, na terra que lhes pertence. Há cartas, como a de Pero Vaz de Caminha, de 1º de maio de 1500, que são documentos de fundação do Brasil: fundam uma nação, ainda sequer imaginada, a partir do olhar estrangeiro do colonizador sobre a terra e sobre os habitantes que nela vivem. E há cartas, como a dos Guaranis Caiovás, escritas mais de 500 anos depois, que são documentos de falência. Não só no sentido da incapacidade do Estado-nação constituído nos últimos séculos de cumprir a lei estabelecida na Constituição hoje em vigor, mas também dos princípios mais elementares que forjaram nosso ideal de humanidade na formação do que se convencionou chamar de “o povo brasileiro”. A partir da carta dos Guaranis Caiovás, tornamo-nos cúmplices de genocídio. Sempre fomos, mas tornar-se é saber que se é. Os Guaranis Caiovás avisam-nos por carta que, depois de tantas décadas de luta para viver, descobriram que agora só lhes resta morrer. Avisam a todos nós que morrerão como viveram: coletivamente, conjugados no plural. Nos trechos mais pungentes de sua carta de morte, os indígenas afirmam: - Queremos deixar evidente ao Governo e à Justiça Federal que, por fim, já perdemos a esperança de sobreviver dignamente e sem violência em nosso território antigo. Não acreditamos mais na Justiça Brasileira. A quem vamos denunciar as violências praticadas contra nossas vidas? Para qual Justiça do Brasil? Se a própria Justiça Federal está gerando e alimentando violências contra nós. Nós já avaliamos a nossa situação atual e concluímos que vamos morrer todos, mesmo, em pouco tempo. Não temos e nem teremos perspectiva de vida digna e justa tanto aqui na margem do rio quanto longe daqui. Estamos aqui acampados a 50 metros do rio Hovy, onde já ocorreram 4 mortes, sendo que 2 morreram por meio de suicídio, 2 em decorrência de espancamento e tortura de pistoleiros das fazendas. Moramos na margem deste rio Hovy há mais de um ano. Estamos sem assistência nenhuma, isolados, cercados de pistoleiros e resistimos até hoje. Comemos comida uma vez por dia. Tudo isso passamos dia a dia para recuperar o nosso território antigo Pyleito Kue/Mbarakay. De fato, sabemos muito bem que no centro desse nosso território antigo estão enterrados vários de nossos avôs e avós, bisavôs e bisavós, ali está o cemitérios de todos os nossos antepassados. Cientes desse fato histórico, nós já vamos e queremos ser mortos e enterrados junto aos nossos antepassados aqui mesmo onde estamos hoje. (…) Não temos outra opção, esta é a nossa última decisão unânime diante do despacho da Justiça Federal de Navirai-MS. Como podemos alcançar o desespero de uma decisão de morte coletiva? Não podemos. Não sabemos o que é isso. Mas podemos conhecer quem morreu, morre e vai morrer por nossa ação – ou inação. E, assim, pelo menos aproximar nossos mundos, que até hoje têm na violência sua principal intersecção. saiba maisA ministra e a prostituta Um repórter ameaçado de morte Um embrulho de papel brilhante A vida na “Tumorlândia” Russomanno e a vulgaridade do desejo Doutor Advogado e Doutor Médico: até quando? Você quer ser pessoa ou paciente? De passagem Por que o amianto foi parar no meio do mensalão? Dançando com fantasmas Com a vênia, Seu Manoelzinho Não atirem no Coringa Chester prefere pagar pelo sexo A primeira morte Desde o ínicio do século XX, com mais afinco a partir do Estado Novo (1937-45) de Getúlio Vargas, iniciou-se a ocupação pelos brancos da terra dos Guaranis Caiovás. Os indígenas, que sempre viveram lá, começaram a ser confinados em reservas pelo governo federal, para liberar suas terras para os colonos que chegavam, no que se chamou de “A Grande Marcha para o Oeste”. A visão era a mesma que até hoje persiste no senso comum: “terra desocupada” ou “não há ninguém lá, só índio”. Era de gente que se tratava, mas o que se fez na época foi confiná-los como gado, num espaço de terra pequeno demais para que pudessem viver ao seu modo – ou, na palavra que é deles, Teko Porã (“o Bem Viver”). Com a chegada dos colonos, os indígenas passaram a ter três destinos: ou as reservas ou trabalhar nas fazendas como mão de obra semiescrava ou se aprofundar na mata. Quem se rebelou foi massacrado. Para os Guaranis Caiovás, a terra a qual pertencem é a terra onde estão sepultados seus antepassados. Para eles, a terra não é uma mercadoria – a terra é. Na ditadura militar, nos anos 60 e 70, a colonização do Mato Grosso do Sul se intensificou. Um grande número de sulistas, gaúchos mais do que todos, migrou para o território para ocupar a terra dos índios. Outros despacharam peões e pistoleiros, administrando a matança de longe, bem acomodados em suas cidades de origem, onde viviam – e vivem até hoje – como “cidadãos de bem”, fingindo que não têm sangue nas mãos. +Leia também: Um tragédia indígena +Fotos: Guarani-caiová Com a redemocratização do país, a Constituição de 1988 representou uma mudança de olhar e uma esperança de justiça. Os territórios indígenas deveriam ser demarcados pelo Estado no prazo de cinco anos. Como sabemos, não foi. O processo de identificação, declaração, demarcação e homologação das terras indígenas tem sido lento, sensível a pressões dos grandes proprietários de terras e da parcela retrógrada do agronegócio. E, mesmo naquelas terras que já estão homologadas, em muitas o governo federal não completou a desintrusão – a retirada daqueles que ocupam a terra, como posseiros e fazendeiros –, aprofundando os conflitos. Nestas últimas décadas testemunhamos o genocídio dos Guaranis Caiovás. Em geral, a situação dos indígenas brasileiros é vergonhosa. A dos 43 mil Guaranis Caiovás, o segundo grupo mais numeroso do país, é considerada a pior de todas. Confinados em reservas como a de Dourados, onde cerca de 14 mil, divididos em 43 grupos familiares, ocupam 3,5 mil hectares, eles encontram-se numa situação de colapso. Sem poder viver segundo a sua cultura, totalmente encurralados, imersos numa natureza degradada, corroídos pelo alcoolismo dos adultos e pela subnutrição das crianças, os índices de homicídio da reserva são maiores do que em zonas em estado de guerra. A situação em Dourados é tão aterradora que provocou a seguinte afirmação da vice-procuradora-geral da República, Deborah Duprat: “A reserva de Dourados é talvez a maior tragédia conhecida da questão indígena em todo o mundo”. Segundo um relatório do Conselho Indigenista Missionário (CIMI), que analisou os dados de 2003 a 2010, o índice de assassinatos na Reserva de Dourados é de 145 para cada 100 mil habitantes – no Iraque, o índice é de 93 assassinatos para cada 100 mil. Comparado à média brasileira, o índice de homicídios da Reserva de Dourados é 495% maior. A cada seis dias, um jovem Guarani Caiová se suicida. Desde 1980, cerca de 1500 tiraram a própria vida. A maioria deles enforcou-se num pé de árvore. Entre as várias causas elencadas pelos pesquisadores está o fato de que, neste período da vida, os jovens precisam formar sua família e as perspectivas de futuro são ou trabalhar na cana de açúcar ou virar mendigos. O futuro, portanto, é um não ser aquilo que se é. Algo que, talvez para muitos deles, seja pior do que a morte. Um relatório do Ministério da Saúde mostrou, neste ano, o que chamou de “dados alarmantes, se destacando tanto no cenário nacional quanto internacional”. Desde 2000, foram 555 suicídios, 98% deles por enforcamento, 70% cometidos por homens, a maioria deles na faixa dos 15 aos 29 anos. No Brasil, o índice de suicídios em 2007 foi de 4,7 por 100 mil habitantes. Entre os indígenas, no mesmo ano, foi de 65,68 por 100 mil. Em 2008, o índice de suicídios entre os Guaranis Caiovás chegou a 87,97 por 100 mil, segundo dados oficiais. Os pesquisadores acreditam que os números devem ser ainda maiores, já que parte dos suicídios é escondida pelos grupos familiares por questões culturais. As lideranças Guaranis Caiovás não permaneceram impassíveis diante deste presente sem futuro. Começaram a se organizar para denunciar o genocídio do seu povo e reivindicar o cumprimento da Constituição. Até hoje, mais de 20 delas morreram assassinadas por ferirem os interesses privados de fazendeiros da região, a começar por Marçal de Souza, em 1983, cujo assassinato ganhou repercussão internacional. Ao mesmo tempo, grupos de Guaranis Caiovás abandonaram o confinamento das reservas e passaram a buscar suas tekohá, terras originais, na luta pela retomada do território e do direito à vida. Alguns grupos ocuparam fundos de fazendas, outros montaram 30 acampamentos à beira da estrada, numa situação de absoluta indignidade. Tanto nas reservas quanto fora delas, a desnutrição infantil é avassaladora. A trajetória dos Guaranis Caiovás que anunciaram sua morte coletiva ilustra bem o destino ao qual o Estado brasileiro os condenou. Homens, mulheres e crianças empreenderam um caminho em busca da terra tradicional, localizada às margens do Rio Hovy, no município de Iguatemi (MS). Acamparam em sua terra no dia 8 de agosto de 2011, nos fundos de fazendas. Em 23 de agosto foram atacados e cercados por pistoleiros, a mando dos fazendeiros. Em um ano, os pistoleiros já derrubaram dez vezes a ponte móvel feitas por eles para atravessar um rio com 30 metros de largura e três de fundura. Em um ano, dois indígenas foram torturados e mortos pelos pistoleiros, outros dois se suicidaram. Em tentativas anteriores de recuperação desta mesma terra, os Guaranis Caiovás já tinham sido espancados e ameaçados com armas de fogo. Alguns deles tiveram seus olhos vendados e foram jogados na beira da estrada. Em outra ocasião, mulheres, velhos e crianças tiveram seus braços e pernas fraturados. O que a Justiça Federal fez? Deferiu uma ordem de despejo. Em nota, a FUNAI (Fundação Nacional do Índio) afirmou que “está trabalhando para reverter a decisão”. Os Guaranis Caiovás estão sendo assassinados há muito tempo, de todas as formas disponíveis, as concretas e as simbólicas. “A impunidade é a maior agressão cometida contra eles”, afirma Flávio Machado, coordenador do CIMI no Mato Grosso do Sul. Nas últimas décadas, há pelo menos duas formas interligadas de violência no processo de recuperação da terra tradicional dos indígenas: uma privada, das milícias de pistoleiros organizadas pelos fazendeiros; outra do Estado, perpetrada pela Justiça Federal, na qual parte dos juízes, sem qualquer conhecimento da realidade vivida na região, toma decisões que não só compactuam com a violência , como a acirram. “Quando os pistoleiros não conseguem consumar os despejos e massacres truculentos dos indígenas, os fazendeiros contratam advogados para conseguir a ordem de despejo na Justiça”, afirma Egon Heck, indigenista e cientista político, num artigo publicado em relatório do CIMI. “No momento em que ocorre a ordem de despejo, os agentes policiais agem de modo similar ao dos pistoleiros, visto que utilizam armas pesadas, queimam as ocas, ameaçam e assustam as crianças, mulheres e idosos.” Ao fundo, o quadro maior: os sucessivos governos que se alternaram no poder após a Constituição de 1988 foram incompetentes para cumpri-la. Ao final de seus dois mandatos, Lula reconheceu que deixava o governo com essa dívida junto ao povo Guarani Caiová. Legava a tarefa à sua sucessora, Dilma Rousseff. Os indígenas escreveram, então, uma carta: “Presidente Dilma, a questão das nossas terras já era para ter sido resolvida há décadas. Mas todos os governos lavaram as mãos e foram deixando a situação se agravar. Por ultimo, o ex-presidente Lula prometeu, se comprometeu, mas não resolveu. Reconheceu que ficou com essa dívida para com nosso povo Guarani Caiová e passou a solução para suas mãos. E nós não podemos mais esperar. Não nos deixe sofrer e ficar chorando nossos mortos quase todos os dias. Não deixe que nossos filhos continuem enchendo as cadeias ou se suicidem por falta de esperança de futuro (…) Devolvam nossas condições de vida que são nossos tekohá, nossas terras tradicionais. Não estamos pedindo nada demais, apenas os nossos direitos que estão nas leis do Brasil e internacionais”. A declaração de morte dos Guaranis Caiovás ecoou nas redes sociais na semana passada. Gerou uma comoção. Não é a primeira vez que indígenas anunciam seu desespero e seu genocídio. Em geral, quase ninguém escuta, para além dos mesmos de sempre, e o que era morte anunciada vira morte consumada. Talvez a diferença desta carta é o fato de ela ecoar algo que é repetido nas mais variadas esferas da sociedade brasileira, em ambientes os mais diversos, considerado até um comentário espirituoso em certos espaços intelectualizados: a ideia de que a sociedade brasileira estaria melhor sem os índios. Desqualificar os índios, sua cultura e a situação de indignidade na qual vive boa parte das etnias é uma piada clássica em alguns meios, tão recorrente que se tornou quase um clichê. Para parte da elite escolarizada, apesar do esforço empreendido pelos antropólogos, entre eles Lévi-Strauss, as culturas indígenas ainda são vistas como “atrasadas”, numa cadeia evolutiva única e inescapável entre a pedra lascada e o Ipad – e não como uma escolha diversa e um caminho possível. Assim, essa parcela da elite descarta, em nome da ignorância, a imensa riqueza contida na linguagem, no conhecimento e nas visões de mundo das 230 etnias indígenas que ainda sobrevivem por aqui. Toda a História do Brasil, a partir da “descoberta” e da colonização, é marcada pelo olhar de que o índio é um entrave no caminho do “progresso” ou do “desenvolvimento”. Entrave desde os primórdios – primeiro, porque teve a deselegância de estar aqui antes dos portugueses; em seguida, porque se rebelava ao ser escravizado pelos invasores europeus. A sociedade brasileira se constituiu com essa ideia e ainda que a própria sociedade tenha mudado em muitos aspectos, a concepção do índio como um entrave persiste. E persiste de forma impressionante, não só para uma parte significativa da população, mas para setores do Estado, tanto no governo atual quanto nas gestões passadas. “Entraves” precisam ser removidos. E têm sido, de várias maneiras, como a História, a passada e a presente, nos mostra. Talvez essa seja uma das explicações possíveis para o impacto da carta de morte ter alcançado um universo maior de pessoas. Desta vez, são os índios que nos dizem algo que pode ser compreendido da seguinte forma: “É isso o que vocês querem? Nos matar a todos? Então nós decidimos: vamos morrer”. Ao devolver o desejo a quem o deseja, o impacto é grande. É importante lembrar que carta é palavra. A declaração de morte coletiva surge como palavra dita. Por isso precisamos compreender, pelo menos um pouco, o que é a palavra para os Guaranis Caiovás. Em um texto muito bonito, intitulado Ñe'ẽ – a palavra alma, a antropóloga Graciela Chamorro, da Universidade Federal da Grande Dourados, nos dá algumas pistas: “A palavra é a unidade mais densa que explica como se trama a vida para os povos chamados guarani e como eles imaginam o transcendente. As experiências da vida são experiências de palavra. Deus é palavra. (...) O nascimento, como o momento em que a palavra se senta ou provê para si um lugar no corpo da criança. A palavra circula pelo esqueleto humano. Ela é justamente o que nos mantém em pé, que nos humaniza. (...) Na cerimônia de nominação, o xamã revelará o nome da criança, marcando com isso a recepção oficial da nova palavra na comunidade. (...) As crises da vida – doenças, tristezas, inimizades etc. – são explicadas como um afastamento da pessoa de sua palavra divinizadora. Por isso, os rezadores e as rezadoras se esforçam para ‘trazer de volta’, ‘voltar a sentar’ a palavra na pessoa, devolvendo-lhe a saúde.(...) Quando a palavra não tem mais lugar ou assento, a pessoa morre e torna-se um devir, um não-ser, uma palavra-que-não-é-mais. (...) Ñe'ẽ e ayvu podem ser traduzidos tanto como ‘palavra’ como por ‘alma’, com o mesmo significado de ‘minha palavra sou eu’ ou ‘minha alma sou eu’. (...) Assim, alma e palavra podem adjetivar-se mutuamente, podendo-se falar em palavra-alma ou alma-palavra, sendo a alma não uma parte, mas a vida como um todo.” A fala, diz o antropólogo Spensy Pimentel, pesquisador do Centro de Estudos Ameríndios da Universidade de São Paulo, é a parte mais sublime do ser humano para os Guaranis Caiovás. “A palavra é o cerne da resistência. Tem uma ação no mundo – é uma palavra que age. Faz as coisas acontecerem, faz o futuro. O limite entre o discurso e a profecia é tênue.” Se a carta de Pero Vaz de Caminha marca o nascimento do Brasil pela palavra escrita, é interessante pensar o que marca a carta dos Guaranis Caiovás mais de 500 anos depois. Na carta-fundadora, é o invasor/colonizador/conquistador/estrangeiro quem estranha e olha para os índios, para sua cultura e para sua terra. Na dos Guaranis Caiovás, são os índios que olham para nós. O que nos dizem aqueles que nos veem? (Ou o que veem aqueles que nos dizem?) A declaração de morte dos Guaranis Caiovás é “palavra que age”. Antes que o espasmo de nossa comoção de sofá migre para outra tragédia, talvez valha a pena uma última pergunta: para nós, o que é a palavra? Eliane Brum escreve às segundas-feiras.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

CAXIRI NA UFSCar: Literatura nativa escrita por índios

CAXIRI NA UFSCar: Literatura nativa escrita por índios: Por Olívio Jecupé [Escritor de literatura nativa e poeta. Presidente da Associação Guarani Nhe´e Porã, morador da aldeia Krukutu, São Pa...
Por Olívio Jecupé

[Escritor de literatura nativa e poeta. Presidente da Associação Guarani Nhe´e Porã, morador da aldeia Krukutu, São Paulo- Parelheiros-SP]





Sei que no passado por exemplo nos anos de 1970 não se conhecia autores indígenas com livros publicados no Brasil, mas hoje está muito diferente porque temos vários escritores indígenas que escrevem e têm livros publicados, ou textos em revistas. Isso é muito bom porque mostramos ao mundo que não somos só contadores de história oral, mas pessoas capacitadas que têm a sabedoria de escrever belas histórias. Por isso hoje podemos ver grandes escritores indígenas, como, Darlene Taukane, Manoel Moura, Giselda Jerá, Jeguaka Mirim, Adão Tataendy, Cristino Wapichana, Eliane Potiguara, Jaime Dessano, Rosi Tapuia, e tantos outros que poderia mostrar aqui nesse texto.


Sendo assim, acredito que a literatura nativa escrita por nós, é muito importante porque vai chegar até os não índios e fará com que a sociedade conheça melhor os povos indígenas, e com isso vai valorizar mais a gente em geral.

E nossa escrita mostrará ao mundo a nossa capacidade de escrever, pois o povo indígena sempre foi mal visto como incapaz. E através dela, podemos mostrar que nós também somos capazes de termos nossos livros publicados.

Quando eu iniciei a escrever em 1984, eu não conhecia nenhum escritor indígena com livro publicado, aliás as editoras não davam muito valor sobre isso, e agora parece que está mudando essa mentalidade, pois as editoras estão publicando mais livros sobre o tema indígena. Isso é bom porque com a nova lei 11.645, onde terá que falar sobre os povos indígenas, os professores terão mais assunto para discutir, e melhor, mais conhecimento para ser discutido nas salas de aula. Sei que antes os professores falavam sobre os povos indígenas, mas não tinha muitos livros sobre essa questão. Por isso, nós índios temos que escrever mesmo, e com sabedoria, porque, levaremos nosso conhecimento ao mundo.

Também, quero dizer que será importante para nossas aldeias, porque nas aldeias chega muitos livros enviados pelas secretarias de educação, mas livros que não é sobre índios. E a partir de agora eles poderão enviar livros de autores indígenas, para que as crianças tenham mais conhecimento sobre os temas que chegarem.

Mas sei que muitos na cidade acham engraçado ver um índio escritor com livros publicados, muitos viam o índio como atrasado, agora que escrevem, vêem com outro preconceito, até dizem que não são índios porque índio é contador de história oral. E nós índios temos que entender que na sociedade não indígena nem todos entenderão nosso ponto de vista, mas devemos escrever mesmo recebendo críticas deles porque muitos outros irão nos entender e nos valorizar.

Aliás, antes eu sofri muito por não ser entendido, e hoje muitos me valorizam e juntos valorizam nosso povo indígena, é que a sociedade é complexa, se um índio faz uma coisa errada, eles dizem que os índios são assim, por isso, quando eles valorizam um índio escritor, aí valorizam os índios.

Também gostaria de dizer que hoje mudou muito no Brasil, temos escolas dentro da própria aldeia e nossas crianças aprendem a ler e escrever, aliás, nas duas línguas, português e na língua nativa, por exemplo, na aldeia krukutu, onde moro, escrevem em guarani e português. E nossas crianças continuam ouvindo história oral junto com seus pais, e, sendo assim, surgirão muitos autores e que poderão publicar livros também, e acredito que em breve teremos muitos escritores indígenas, o que facilitará mais a sociedade a nos compreender melhor. Como exemplo, eu tenho alguns filhos e quero citar um exemplo, tenho um que se chama Jeguaka Mirim, que nasceu em 2001 e desde pequeno ele gostava de ouvir história e sempre eu contava alguma pra ele antes de dormir, aí com 6 anos ele entrou na escola e logo aprendeu a ler, com isso ele começou a ler meus livros, isso me deixou contente, porque vi que gostava de ler, aí com oito anos ele pegou um caderno e começou a escrever algo, depois ele quis digitar no notebook, e pude ver que ele tinha talento para escrever, agora posso dizer que ele é escritor, e já tem um contrato assinado com uma editora e em breve o Brasil irá conhecer o pequeno guarani escritor. Por isso, sei que outros kurumins no Brasil poderão publicar um livro também, e por isso que é importante que a sociedade apoie os povos indígenas escritores.

E como eu sou escritor gostaria de comentar um pouco de cada livro, primeiro que falarei é:


  • 500 anos de Angústia: é um livro de poesias e que pelo título dá pra perceber que é uma critica aos 5oo anos de sofrimento por tantos problemas sofridos nesses séculos de invasão.
  • Verá o contador de história: é um livro em que eu uso um kunumi-menino e que tem o dom de criar e contar histórias, pois muitos sempre imaginam que os velhos são os contadores , mas na verdade quem conta história já nasce com esse talento.
  • Iarandu o cão falante: já nesse livro eu mostro algo interessante, pois muitos dizem que os animais não pensam, e através de um cachorro que é iarandu, um gênio, irá conversar com um garoto e trocará ideias filosóficas e quem ler esse livro poderá entender melhor os cachorros.
  • Xerekó arandu a morte de Kretã: esse livro mostra a história de um dos maiores líderes, foi o primeiro vereador do Brasil, e lutou muito para defender seu povo e em 1980, a mando de quem não queria o bem dos índios, mandaram matá-lo. É um livro emocionante e choro todas as vezes que leio.
  • O saci verdadeiro: quero dizer que o saci é um personagem indígena e que tem duas pernas e é o protetor da floresta, é conhecido como Kamba'i ou Jaxy Jatere. E sou o primeiro no Brasil a escrever essa história desse personagem.
  • Ajuda do Saci: mostro uma aldeia em que não havia escola e um dos kunumi deseja estudar e aí para realizar seu sonho irá morar na cidade de uma família amiga, ficará lá três anos, até que acontecerá algo triste com ele e ficará paraplégico e terá que voltar para a aldeia e sua tristeza chega até o Saci (Jaxy Jaterê) - e nisso vocês conhecerão um pouco mais sobre o que acontecerá depois, é um livro que está traduzido em guarani.
  • Arandu ymanguaré: esse livro é pequeno mas grande nas ideias, e nele tem um pequeno momento de perguntas e respostas e algumas histórias, fico feliz por ter recebido muitos elogios dos que leram esse trabalho e espero que você também se sinta feliz ao ler.
  • Indiografie: esse livro foi publicado na Itália e fiz o lançamento em Roma e outras cidades. Eu havia sido convidado para publicar um livro e nisso resolvi que fosse uma coletânea e aí convidei outros autores indígenas para fazer parte, achei importante porque acredito que os leitores de lá iam gostar muito dessa ideia. E gostaram mesmo, disseram eles nos eventos que fiz. -Literatura escrita pelos povos indígenas: Nesse livro eu tento mostrar um pouco de minhas experiências que tive desde que iniciei a escrever nos anos de 1984 e como anda hoje a literatura nativa escrita por mim e outros autores -Tekoa conhecendo uma aldeia indígena: Nesse livro eu uso um menino da cidade que deseja conhecer uma aldeia e no tempo que ele vai ficar na aldeia, irá conhecer o dia a dia de uma comunidade, e volta feliz por conhecer uma cultura diferente da sua e notará que o índio não é inferior, mas diferente culturalmente.
  • A mulher que virou urutau: Esse livro é um mito contado nas aldeias guarani, nele mostra a história do lua e a história de uma moça que se apaixonou por ele. É um livro bilíngue, em português e guarani.








segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Olivio Jekupe contato oliviojekupe@yahoo.com.br O presídio indígena da ditadura •Destaque foto grande | •Nacional Denúncias apontam o Reformatório Agrícola Krenak, em Minas Gerais, como centro de tortura de índios durante regime militar 09/10/2012 André Campos de São Paulo (SP) Sede do reformatório onde funcionava a sede da Funai na Fazenda Guarani e onde fi cava a solitária onde os índios eram confinados - Fotos: André Campos Em julho, a Comissão Nacional da Verdade – sancionada pela presidenta Dilma Rousseff para investigar violações de direitos humanos cometidas, durante a ditadura militar, por agentes do Estado – anunciou que também irá apurar os crimes contra os índios. “Vamos investigar isso, sim, porque na construção de rodovias há histórias terríveis de violações de direitos indígenas”, afirmou, na ocasião, o diplomata Paulo Sérgio Pinheiro, um dos sete integrantes da Comissão. Mas o massacre de etnias que se opuseram a grandes obras é apenas um dos capítulos dessa história. Tal como outros grupos subjugados nos “porões da ditadura”, os habitantes de aldeias Brasil afora também foram alvo de prisões clandestinas, associadas a denúncias de tortura, desaparecimentos e detenções por motivação política. E que, ao contrário de outros crimes cometidos pelo Estado à época, ainda não foram objeto de nenhum tipo de reparação oficial ou política indenizatória. Tais violações de direitos humanos apontam para o município de Resplendor (MG), onde funcionou o Reformatório Agrícola Indígena Krenak, um velho conhecido do pataxó Diógenes Ferreira dos Santos. “Eu não gosto nem de falar, porque ainda me dá ódio”, diz, com o semblante fechado de quem está prestes a tocar em lembranças difíceis. “Mas quando puxa o assunto, meu irmão...” Quando começa, ele fala sem parar. Diógenes era ainda uma criança no dia em que, conforme conta, viu dois policiais se aproximarem da casa onde vivia, na Terra Indígena Caramuru Paraguaçu, encravada em meio às fazendas de cacau da região sul da Bahia. Vieram, diz ele, acionados por um fazendeiro, que reclamava ser o dono daquele local. Para não deixarem dúvidas sobre suas intenções, cravejaram de balas uma árvore próxima. E, logo depois, colocaram fogo na casa onde o pataxó vivia com sua família. Exilados de seu território, Diógenes e seus pais viveram por cinco anos trabalhando numa fazenda próxima. Até serem novamente expulsos, no final da década de 1960. “Já que não tínhamos apoio de ninguém, decidimos voltar para o Caramuru”, conta. Lá chegando, não demorou nem 15 dias para novamente apareceram policiais. Dessa vez estavam incumbidos de escoltar Diógenes e seu pai até a cidade. “Ficamos seis dias presos na delegacia de Pau Brasil (BA)”, relembra. “Até que veio a ordem de nos levarem para o reformatório Krenak, que eu nem sabia o que era”. O índio pataxó Diógenes Ferreira dos Santos No Krenak, a cerca de 700 km de sua terra natal, Diógenes, então ainda um adolescente, descreve ter vivido uma rotina de trabalhos forçados, realizados sob o olhar vigilante de policiais militares. “Íamos até um brejo, com água até o joelho, plantar arroz”, revela. Cotidiano interrompido apenas para esporádicos jogos de futebol, organizados pelos guardas e de participação obrigatória, segundo o pataxó. “Meu pai não gostava, nunca tinha jogado bola na vida. Aquilo era uma humilhação para ele.” Ironicamente, mais de 40 anos depois, o Supremo Tribunal Federal (STF) anulou, em maio de 2012, todos os direitos de propriedade dos fazendeiros que, nos dias atuais, ainda ocupavam a Terra Indígena Caramuru Paraguaçu. Sacramentando, portanto, a legitimidade do pleito de Diógenes na querela fundiária que o levou ao cárcere Pedagogia da tortura O reformatório Krenak começou a funcionar em 1969, em uma área localizada dentro do extinto Posto Indígena Guido Marlière. Suas atividades eram comandadas por agentes da Polícia Militar mineira, que, à época, recebeu a incumbência de gerir as terras indígenas daquele estado por meio de um convênio com a recém-criada Fundação Nacional do Índio (Funai). Num boletim informativo da Funai de 1972, encontramos uma das poucas menções oficiais a respeito do local, qualificando-o como uma experiência de “reeducação de índios aculturados que transgridem os princípios norteadores da conduta tribal, e cujos próprios chefes, quando não conseguem resguardar a ordem na tribo, socorrem- se da Funai visando restaurar a hierarquia nas suas comunidades”. Osires Teixeira, então senador pela Aliança Renovadora Nacional (Arena) – o partido de sustentação da ditadura –, se pronunciou sobre o tema na tribuna do Senado, afirmando que os índios do Krenak “retornam às suas comunidades com uma nova profissão, com melhores conhecimentos, com melhor saúde e em melhores condições de contribuir com o seu cacique”. À época, fora do governo – eram os “anos de chumbo” da ditadura –, também se contam nos dedos as referências à instituição. Em 1972, um enviado especial do Jornal do Brasil chegou a entrar clandestinamente no reformatório, naquela que provavelmente é a única reportagem in loco sobre o tema. Mas sua presença durou poucos minutos – segundo a própria matéria, ele foi expulso sob ameaças da polícia. Ex-integrante do Conselho Indigenista Missionário em Minas Gerais (Cimi/ MG), a pedagoga Geralda Chaves Soares conheceu diversos ex-internos do Krenak. Aquilo que ela relata ter ouvido sobre os “métodos reeducacionais” da instituição – que incluíam indígenas açoitados e arrastados por cavalos – sugerem o real motivo por trás de tanto sigilo. “Uma das histórias contadas é a de dois índios urubu-kaápor que, no Krenak, apanharam muito para que confessassem o crime que os levou até lá”, conta ela. “O problema é que eles nem sequer falavam português”. Um dos mais graves exemplos de tortura remete ao indígena Gero Maxacali, ex-morador da Aldeia Água Boa, em Santa Helena de Minas (MG). Levado ao Krenak, conta Geralda, lá ele teria sido literalmente queimado por dentro ao ser obrigado a beber, de forma alternada, leite fervendo e água gelada. Depois disso, com dificuldades para se alimentar, passou a ter sérios problemas de saúde – que, anos depois, o levariam à morte. O Brasil de Fato teve acesso a documentos da Funai que desnudam diversos aspectos sobre o cotidiano do presídio indígena. Eles revelam que ao menos 120 indivíduos, pertencentes a 25 etnias dos mais diferentes rincões brasileiros, passaram pela instituição correcional. Pessoas que, via de regra, chegavam a Resplendor a pedido dos chefes de posto local da Funai. Mas também, em alguns casos, por ordem direta de altos escalões em Brasília. É o caso, por exemplo, de um índio canela, do Maranhão, encaminhado à instituição em julho de 1969. “Além do tradicional comportamento inquieto da etnia – andarilhos contumazes –, o referido é dado ao vício da embriaguez, quando se torna agressivo e por vezes perigoso. Como representa um péssimo exemplo para a sua comunidade, achamos por bem confiá-lo a um período de recuperação na Colônia de Krenak”, atesta ofício emitido pelo diretor do Departamento de Assistência da Funai. Homicídios, roubos e o consumo de álcool nas aldeias – na época reprimido com mão de ferro pela Funai – estão entre os principais motivos alegados para o envio de índios a temporadas corretivas. Além disso, também transparecem na burocracia oficial situações de brigas internas, uso de drogas, prostituição, conflitos com servidores públicos e indivíduos penalizados por atos descritos como vadiagem. Boa parte desses supostos roubos, conforme revelam os próprios ofícios internos da Funai, remetem a atos de periculosidade risível, para dizer o mínimo. Gente como, por exemplo, um maxacali flagrado afanando uma cigarreira, três camisas de tergal, uma caixa de botões e alguns outros cacarecos na sede do seu posto indígena. Ou, ainda, o xerente que, após beber em uma “festa de civilizados”, voltou à aldeia pedalando a bicicleta de outra pessoa, tendo esquecido a sua própria para trás – engano provocado pela embriaguez segundo o próprio servidor local que solicitou a sua remoção. Imagens atuais do espaço onde funcionava a solitária As estadias no reformatório podiam durar de poucos dias a até mais de três anos. Para serem libertados, os internos dependiam da avaliação comportamental dos policiais custodiantes, mas também de certa dose de sorte para não se tornarem “índios extraviados” na confusa burocracia da Funai. “Não sabemos a causa real que motivou o seu encaminhamento, uma vez que não recebemos o relatório de origem”, escreveu aos seus superiores o cabo da PM Antônio Vicente, um dos responsáveis locais, sobre um índio xavante, considerado de bom comportamento, que lá estava há mais de cinco meses. Nesse balaio de gatos, alguns casos soam quase surrealistas. Um deles ocorreu em 1971, quando chegou ao reformatório um índio urubu-kaápor, com ordens de permanecer sob severa vigilância e em alojamento isolado. Seu encaminhamento a um “período de recuperação” justificava-se, segundo a Ajudância Minas-Bahia – órgão da Funai ao qual estava subordinado o reformatório – por ele ter praticado “atos de pederastia” em sua aldeia. Dois meses depois, consta nos documentos do órgão indigenista que ele se apoderou de uma Gilette para tentar suicídio com um corte no abdômen. Recebeu atendimento médico e, após alguns meses, tentou uma fuga, sendo recapturado já em outro município. Entre os internos, havia também pessoas aparentemente acometidas de transtornos mentais, vivendo no Krenak sem qualquer tipo de amparo psiquiátrico. A exemplo de um índio da etnia campa, clinicamente diagnosticado como esquizofrênico segundo relatório do próprio órgão indigenista. E que, entre outras excentricidades, dizia possuir vários automóveis e aviões, além de ser amigo íntimo do mandatário supremo da nação. “Sempre que um avião passa sobre esse reformatório ele pula e grita, dizendo que é o presidente vindo busca-lo”, relata um ofício a seu respeito. Ocrides Krenak: preso pelo consumo de cachaça Para alguns dos indígenas, a ida ao Krenak provou-se um caminho sem retorno. É o caso de Manoel Vieira das Graças, o Manelão Pankararú, levado ao presídio indígena em 1969 após uma briga violenta com outros índios de sua aldeia. Com mulher e filhos, Manelão está até hoje instalado em Resplendor. Tal como outros índios que, desativado o reformatório, permaneceram na região por conta de amizades e casamentos oriundos dos anos de cárcere – havia também mulheres entre os prisioneiros. Atualmente, ele faz planos para revisitar a aldeia onde nasceu pela primeira vez desde que saiu preso da Terra Indígena Pankararú, no sertão pernambucano. “Eu me arrepio só de lembrar das nossas danças, das brincadeiras e do Toré (ritual típico da etnia)”, confidencia, saudoso e emocionado. Sua casa atual fica a poucos quilômetros da antiga sede do Krenak, às margens do rio Doce, onde ainda existem as ruínas de concreto e aço da sede da instituição, parcialmente derrubadas por duas cheias no rio. Quando vier a próxima enchente, acreditam alguns moradores da região, devem também vir abaixo as últimas paredes que insistem em ficar de pé. Entre os que não retornaram há também aqueles cujo destino, ainda hoje, permanece uma incógnita. Situação que remete, por exemplo, a Dedé Baena, ex-morador do Posto Indígena Caramuru, na Bahia. “Ninguém sabe se é vivo ou morto porque foi mudado para o presídio Krenak e desapareceu”, revela um não-índio, nascido na área do referido Posto Indígena, em depoimento de 2004 à pesquisadora Jurema Machado de Andrade Souza. Outros relatos atuais de indígenas da região confirmam o sumiço. Em agosto de 1969, conforme está registrado em um ofício da Funai, Dedé foi levado a Resplendor a pedido do chefe do Posto em questão, que o qualificou como um “índio problema”, violento quando embriagado e dono de vasto histórico de agressões a “civilizados”. Lá chegou inclusive necessitando de cuidados médicos, com uma agulha de costura fincada na perna – ferimento ocorrido em circunstâncias não explicadas. Nos documentos aos quais teve acesso, o Brasil de Fato não encontrou registros de sua eventual libertação, morte ou mesmo fuga. “Índios vadios” Paralelamente à chegada dos “delinquentes”, dezenas de índios krenaks ainda habitavam áreas vizinhas ao reformatório. Estavam submetidos à tutela dos mesmos policiais responsáveis pela instituição correcional, o que os tornava um alvo preferencial para ações de patrulhamento. Diversos deles acabaram confinados. Homens e mulheres krenaks foram também recrutados para trabalhar na prisão indígena, e dão testemunho sobre as violências desse período. “Quem fugia da cadeia sofria na mão deles”, afirma Maria Sônia Krenak, ex-cozinheira no local. “E a mesma coisa as crianças da aldeia. Se fugissem da escola, também apanhavam”. Por mais incrível que pareça, até mesmo a vida amorosa dos índios locais passava pelo crivo da polícia. “Antes de responder ao ‘pedido de casamento’, procedi (sic) uma sindicância sigilosa e sumária na vida pregressa do pretendente, apurando-se que é pessoa pobre, porém honesta”, aponta ofício escrito pelo sargento da PM Tarcisio Rodrigues, então chefe do Posto Indígena, pedindo aos seus superiores deliberação sobre o noivado de uma índia com um não índio dos arredores. Na Terra Indígena Krenak, homologada em 2001 em Resplendor, muitos ainda tem histórias para contar sobre esse período. “Eu, uma vez, fiquei 17 dias preso porque atravessei o rio sem ordem, e fui jogar uma sinuquinha na cidade”, rememora José Alfredo de Oliveira, patriarca de uma das famílias locais. É um exemplo típico do que, para a polícia, era considerado um ato de vadiagem. Assim como ocorria em outras regiões do país, os krenaks só podiam deixar o território tribal mediante a autorização do chefe local da Funai. Até mesmo a caça e a pesca fora dos postos indígenas – frequentemente inadequados para prover a alimentação básica – podiam, à época, levar índios Brasil afora diretamente ao reformatório. Para Geralda, ex-Cimi, por trás de situações como essas – de sedentarismo forçado, prisões de “índios vadios” e até mesmo de supostos ladrões – havia, na verdade, um contexto de conflito territorial. “Por exemplo, os maxacalis (habitantes do Vale do Mucuri, no nordeste de Minas Gerais). Nessa época eles atacavam as fazendas de gado. Estavam confinados num posto indígena, passando fome, então caçar uma vaca era uma atividade de caçador mesmo. E aí prendiam o índio porque ele tinha roubado uma vaca”, contextualiza. “Mas, de fato, era uma questão de sobrevivência, e também de resistência. Achavam que, pressionando os fazendeiros, eles iriam embora. A compreensão maior de que a luta pela terra tem esse viés da Justiça só veio depois.” No início dos anos de 1970, até mesmo a área ocupada pelos krenaks e pelo reformatório vivia dias de intensa disputa, reivindicada por posseiros que arrendaram lotes nos arredores. Como saída para o imbróglio, o governo de Minas Gerais e a Funai negociaram uma permuta entre tais terras e a Fazenda Guarani, área localizada em Carmésia (MG) e que pertencia à Polícia Militar mineira. Em 1972, foram todos – os krenaks, o reformatório e os confinados – deslocados para lá. Logo após essa mudança, mudou também o chefe da Ajudância Minas- Bahia. Quem o assumiu foi o juruna João Geraldo Itatuitim Ruas, um dos primeiros servidores de origem indígena a ocupar postos de comando na Funai. “Imagina o que era para mim, como índio, ouvir a ordem do dia do cabo Vicente, botando todos os presidiários em fila indiana, antes de tomarem um café corrido, e falando que seria metido o cacete em quem andasse errado. E que, para aquele que fugisse, havia quatro cachorros policiais, treinados e farejadores, prontos para agir”, exemplifica. “Eles não trabalhavam no sábado, que era dia de lavar a roupa, costurar, essas coisas todas. Mas, durante a semana, era trabalho escravo!” Frente a essa realidade, Ruas afirma ter procurado o ministro do Interior – Maurício Rangel Reis, morto em 1986 – para discutir o fim da instituição correcional. Um encontro do qual diz ter saído sob ameaças de demissão. Mesmo assim, ele conta ter começado a enviar, de volta às aldeias de origem, diversos dos confinados. Ruas perdeu seu cargo pouco tempo depois. Mas enquanto alguns saíam, a Fazenda Guarani ainda recebia, em meados da década de 1970, outras levas indígenas fruto de litigâncias fundiárias no Brasil. Foi o que ocorreu com os guaranis da Aldeia Tekoá Porã, em Aracruz (ES). Os guaranis, explica o cacique Werá Kwaray – que passou parte da sua adolescência em Carmésia –, caminham pelo mundo seguindo revelações. E foi uma revelação que levou o seu grupo a sair do sul do país, na década de 1940, em busca da “terra sem males” – local onde, segundo as crenças da etnia, é possível alcançar uma espécie de perfeição mística, algo como um paraíso na terra. Liderados por uma xamã, chegaram a Aracruz duas décadas depois. Mas sobre aquele lugar também repousavam planos para viabilizar enormes plantações de eucalipto, um choque de interesses levou os indígenas, sob pressão e a contragosto, para a Fazenda Guarani. “Foi uma violação dos direitos sagrados dos nossos líderes religiosos”, expõe o cacique. Depois de alguns anos em Carmésia, os guaranis retornaram a Aracruz, onde, em 1983, conseguiram a homologação da área indígena que habitam até hoje. A virada dos anos de 1970 para os anos de 1980 marca as últimas denúncias sobre o uso da Fazenda Guarani como local de prisão, confinamento ou despejo de índios “sem terra”. Todos foram embora do local, à exceção de um grupo pataxó que lá se instalou definitivamente após sair de áreas em Porto Seguro (BA). Atualmente, o casarão que servia como sede aos destacamentos policiais foi convertido em moradia para alguns desses indígenas. E a antiga solitária local virou um depósito onde se empilham os cachos de banana abundantemente colhidos nas redondezas. | ");

terça-feira, 26 de junho de 2012

Literatura nativa: Vida que Brinca e InformaPor Alcione Pauli e Maria...

Literatura nativa: Vida que Brinca e InformaPor Alcione Pauli e Maria...: Vida que Brinca e Informa Por Alcione Pauli e Maria Lúcia C. Rodrigues “Mais importante que as dores no corpo foi a liberdade que jamais t...
Vida que Brinca e Informa Por Alcione Pauli e Maria Lúcia C. Rodrigues “Mais importante que as dores no corpo foi a liberdade que jamais tinha experimentado.” (Olívio Jekupé) Guerreiro da nação Guarani, Olívio Jekupé viajou pelo mundo e escreveu alguns livros. Escreve por acreditar que a tecnologia da escrita pode apresentar um olhar singular sobre os misteriosos povos indígenas. Ao apresentar “Tekoa conhecendo uma aldeia indígena”, Olívio nos convida a conhecer o mundo visto pelo povo guarani. Para fazer esta viagem o autor cria personagens fora da Tekoa e os insere lá no lugar no qual vivem os guaranis - conforme suas leis e costumes - para um mergulho silencioso e cuidadoso nos ritos e mitos que circulam nos alimentos, nos eventos e nas relações. Os personagens Eduardo e seu filho Carlos, Mirim e seu pai Tucumbó são os que fazem a informação aparecer. Carlos é um menino de São Paulo que passa um mês com o menino Mirim, filho do Cacique Tucumbó. Mirim apresenta tudo ao Carlos sem pressa. Passeia entre as bananeiras e os rios e vai ensinando coisas de seu povo. Sem querer ensinar revela os segredos que pode soltar. Carlos é envolvido pelo pio da Coruja e adormece entre os guaranis. Depois de um sono revigorante descobre o que é Tekoa, poi-poi, yvira nhex, petynguá, mboy, tokoiró... os dias passam e ao retornar para sua casa, em São Paulo, leva em sua memória a... “Saudade é uma distância que não se mede em quilômetros. Aquela gente tão igual e tão diferente. Um povo cuja cultura é tão antiga e cheia de sentidos.” (p. 27). Mais do que a informação por trás do enredo está a riqueza poética das imagens que o ilustrador Maurício Negro cria para o livro, que já em sua capa apresenta um emaranhado de signos mesclados nos tons terrosos. A viagem do menino não começa na palavra, o leitor sabe que há um deslocamento do personagem pelas marcas de pneus, atravessando as páginas e mapas. Negro constrói suas imagens com elementos naturais como: folhas, terra, palha, sementes que aliados à fotografia e ao grafismo, seja por tinta ou por desenho, juntam-se à técnica antiga do pirógrafo que, com sua ponta fina e incandescente, queima a madeira, tatuando-a definitivamente. Por que não dizer que as ilustrações da obra são uma salada de expressões plásticas que sintetizam a riqueza da cultura indígena brasileira? Cada página do livro traz uma novidade em termos de cores, traços e técnica empregada, tal qual é a novidade encontrada por Carlos - a cada dia passado na aldeia guarani. A plasticidade das ilustrações para a obra é latente; é um convite a nos deleitarmos com os minuciosos detalhes, com as formas e cores da natureza que invadem as páginas do livro. Assim é Tekoa: um texto com vida que brinca e informa. FICHA TÉCNICA: Obra: Tekoa conhecendo uma aldeia indígena Autor: Olívio Jekupé Ilustrador: Mauricio Negro Editora: Global

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Folha de São Paulo, sábado, 28 de abril de 2012 Projeto conta história indígena em idioma falado por 6 pessoas Narração em língua maraguá estará no site da editora em maio MÁRIO MOREIRA COLABORAÇÃO PARA A FOLHA Uma iniciativa editorial vai ajudar na preservação sonora de idiomas indígenas. O livro bilíngue (português-maraguá) "A Origem do Beija-Flor", de Yaguarê Yamã, da nação saterê mawé, sai em maio pela Peirópolis. No site da editora (www.editorapeiropolis.com.br), haverá um link para ouvir a narração do livro em maraguá, falado hoje por apenas seis pessoas, segundo a editora Renata Borges. A obra será a segunda da coleção Peirópolis Mundo, em idiomas em extinção (o primeiro foi uma história em xhosa, língua sul-africana, já disponibilizado no site). Borges diz que a ideia do projeto "é trabalhar com a diversidade linguística e cultural" e "proporcionar o contato da criança com a riqueza fonética" do idioma maraguá. "Há 190 línguas indígenas em extinção no Brasil", afirma ela, que pretende editar, como volume seguinte da coleção, um livro português-crenaque (grupo indígena da região do Vale do Rio Doce). Os crenaques são estimados hoje em cerca de 350 pessoas. A editora FTD já havia lançado uma coletânea com 20 histórias de povos indígenas de todas as regiões do país. Foi escrita em português e na respectiva língua indígena, incluindo um CD com a narração no idioma original. O projeto, intitulado "Antologia de Histórias Indígenas", foi capitaneado pelo escritor Daniel Munduruku, um dos principais autores indígenas do país. Reuniu diferentes narrativas de povos indígenas do Norte (sete), Centro-Oeste (seis), Nordeste (duas), Sudeste (quatro) e Sul (três). "A oralidade é a fonte mais primitiva da cultura indígena. Suspeitamos que muitas dessas histórias foram registradas pela primeira vez na língua original", afirma Ceciliany Alves, editora de literatura infantojuvenil da FTD. NA GAVETA Desde os anos 1990, os escritores índios vêm ganhando espaço, sobretudo na literatura infantojuvenil. Hoje são mais de 30, de acordo com o escritor Kaká Werá Jecupé. "Até os anos 1990, tinha sempre alguém escrevendo pelo índio. Hoje, de maneira ainda incipiente, já existe uma visão diferente daquela que enxerga o índio como animal folclórico e exótico." O autor Olivio Jekupé, que na infância frequentou aldeias guaranis no Paraná, chegou a cursar filosofia na USP e já teve 12 obras infantis lançadas. "Em compensação, tenho um livro sobre a situação dos índios, mas não consigo publicar. As editoras não acreditam muito em índio falando de seus problemas. Pelo menos a literatura infantil foi uma abertura para nós." Olivio Jekupe, escritor de literatura nativa e poeta e presidente da assiciação guarani nhe´em porã. Aldeia Krukutu oliviojekupe@yahoo.com.br

quinta-feira, 1 de março de 2012

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Visita da Globo na aldeia Krukutu

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Expedição do flutuador na Billings visita aldeia indígena em Parelheiros


Nesta terça-feira (14), a expedição do flutuador encontrou duas situações bem diferentes na Represa Billings. No extremo sul da capital, foi possível observar uma aldeia indígena que convive em harmonia com a represa. Já em São Bernardo do Campo, a polícia ambiental flagrou muita devastação.
Dan Robson e o flutuador passaram por uma aldeia indígena na região de Parelheiros, no extremo sul da cidade. Trezentos e cinquenta índios guarani moram em uma área de 25 hectares e sabem da importância de conviver bem com a represa. “A gente ensina a nossas crianças que a gente precisa respeitar o rio, se a gente não respeitar, a gente não vai ter sobrevivência”, conta Olívio Jekupe, presidente da associação dos moradores da aldeia.
Cercada por tanta mata, a água apresentou um bom índice de oxigênio durante todo o percurso. Começou com 5,1 mg/l e acabou com 8 mg/l.
Enquanto Dan e o flutuador navegavam na área, em outros pontos da represa a polícia fez uma operação para flagrar crimes ambientais e infrações na represa. Onze equipes participaram da fiscalização.
Em São Bernardo do Campo, a polícia encontrou uma área devastada recentemente. Em outro ponto da cidade, cavalos são criados bem próximos das margens da represa. Os donos das propriedades foram multados. “Nós fizemos seus autos de infração ambiental com valor de multa e três ocorrências de crimes ambientais”, diz Paola Mele, tenente da Polícia Ambiental